domingo, 13 de maio de 2012

Desacato é o 13 de maio: Emicida, o "Dedo na ferida" e os capitães do mato




A forjada abolição da escravatura no Brasil, ocorrida em 1888, já não é referendada por nós há muito tempo. Todxs sabemos dos problemas existentes em “comemorarmos” uma data que ainda está engasgada na garganta de quem foi escamoteadx para os lugares mais remotos, negligenciados e esquecidos por quem promovia o projeto de branqueamento e higienização da nação ambiciosa por esquecer que houve escravidão no Brasil, assim como esquecer que certa vez existiram pretxs nela. 

“Dedicado às vítimas do Moinho, Pinheirinho, Cracolândia, Rio dos Macacos, Alcântara e todas as quebradas devastadas pela ganância” assim se inicia a música “Dedo na ferida” que ocasionou a prisão o rapper Emicida, hoje, 13 de maio, após um show em Belo Horizonte-MG. A música é banhada por uma indigesta indignação diante do abuso que o aparelho coercitivo do Estado destina a uma dada população, de uma dada cor, que vive nos arredores de um dado poder e que, aos olhos desse, deveria ter desaparecido em um dado 1888. 

O rapper segue em sua canção cheia de scratchs, com a voz icônica de Mano Brown, nos lembrando que a fúria negra ressucitará sempre e indaga: “Auschwitz ou gueto? índio ou preto?”. O tratamento da polícia diante da população negra, que segue arquitetando o precário mais de um século depois do pseudo “presente da princesinha”, é envolto por uma violência que nos faz questionar se tudo ficou como memória amarga dos tempos da colônia. O genocídio da população negra brasileira é latente, as instruções de perseguição ao “elemento cor padrão” já figuraram (ainda figuram?) em cartilhas da Polícia Militar, barracos de centenas de famílias são derrubados e sangue é derramado visando o bem estar de um único empresário, e o desacato é do artista que cometeu o "crime" de não ter a cor certa para portar a legítima defesa que é a liberdade poética?

“Contra porcos em castelo / O povo tem que cobrar com os parabelo /Porque a justiça deles, só vai em cima de quem usa chinelo /E é vítima, agressão de farda é legítima” eis aí a pedrada de Emicida, eis aí a voz dxs silenciadxs encontrando seus algozes tête-à-tête. Esse é produto que o discurso do rap carrega consigo, a liberdade RAPoética reverbera a fúria que jamais deixou de protagonizar nossas resistências cotidianas que vão desde pegar o ônibus lotado para o trabalho, até a organização de uma manifestação para a defesa das comunidades que os senhores da casa grande insistem em usurpar. 

Não gosto nem um pouco de vislumbrar na minha frente um cenário com tantos resquícios de um passado espúrio, mas o fato é que as analogias são inevitáveis ao passo que o anacronismo fica sem justificativa de existir. Não é a-histórico dizer que o racismo perdura no Brasil se o que vemos é uma sociedade em que alguns figurões, donos de terras, mandam derrubar casas de gente negra e pobre. Não é a-histórico dizer que o racismo perdura no Brasil se o que vemos é um país que endereça “balas não perdidas” à população negra, que mata nossos jovens e se esconde atrás dos “autos de defesa” cheios de sangue. Não é a-histórico dizer que o racismo perdura no Brasil se o que vemos é uma polícia ignorante e despreparada que apenas atualiza o papel dos capitães do mato de outrora. Não é a-histórico dizer que o racismo perdura no Brasil se o que vemos é um artista tendo sua liberdade poética, expressiva e criativa sendo cerceada por um aparelho que deveria estar atento a questões urgentes, embora muito bem legitimadas e escamoteadas por brancos colarinhos. 

13 de maio de 2012, nada mais do que 124 anos após a abolição, nos vemos perante um extremado abuso autoritário que costuma encontrar a arte apenas nos períodos de governos golpistas com sabor de chumbo. Como felizmente esse não é nosso atual caso, é fácil perceber que se o agente enunciador do discurso for da cor receptora das brutalidades do mundo e que se houver o “agravante” dessa mensagem ser veiculada por um gênero altamente estigmatizado como o rap, a cadeia surge como “saída” e simulacro de todo um passado escravagista pautado na exploração racial. Hoje foi um daqueles dias em que nós, descendentes de ex-escravizadxs, mais uma vez amargamos na boca a raiva de uma data pesada, revivemos o ódio forjado pelos poderosos e alastrado pelos capitães do mato (pardos irmãos de cor) nas trilhas desse país purulento de feridas, estávamos ali na figura de Emicida, uma voz dissonante questionadora do vil poder, desacatadxs pelo 13 de maio, sendo todxs dedos na ferida.

* Escurecimentos sobre o ocorrido no site do Emicida: http://www.emicida.com/
**Para ouvir “Dedo na ferida”: http://www.youtube.com/watch?v=QdvYAjQYdIs&feature=youtu.be

domingo, 22 de abril de 2012

E para cantar a Literatura Marginal...


Na primeira vez em que eu ouvi a música #Poucas Palavras, do Grupo Inquérito, faixa do álbum "Mudança", fiquei agoniada pra escrever algo sobre sua construção de um fundo musical muito contundente, belo e fidedigno para a Literatura Marginal. Trata-se de uma música que me impulsiona consideravelmente, me arrepiou com sua ode a essa faceta da expressão artística que me faz acreditar em melhores faces para o mundo e isso me estimula a seguir. Tenho muito orgulho de estudar a literatura que estudo, de admirar xs escritorxs que admiro e de saber que essa produção periférica fissura muitos dogmas intocáveis. Isso é possível sim, acreditem, xs pessimistas que me desculpem, mas botar fé na MUDANÇA é fundamental. 
                Aqui no tardia eu já falei um pouco da obra #PoucasPalavras, do Renan Inquérito, um livro que bombardeia as certezas do cânone literário de uma forma desafiadora! “Se a história é nossa deixa que #nóisescreve” (frase enunciada na música também intitulada #PoucasPalavras) essa é a marcação de uma autonomia que nos foi surrupiada sistematicamente ao longo da nossa história, a narrativa de quem sempre esteve à margem. Já disse Foucault que o discurso é uma luta pelo poder, nessa perspectiva a instrumentalização para que pudéssemos alcançá-lo seria a nós impedida a todo custo. O que arranca minha admiração e me motiva é o discurso fronteiriço forjado nos arredores desse mundo de impedimentos, a Literatura Marginal é um exemplo cativo desse empreendimento.
                O livro organizado pelo escritor Ferréz, Literatura Marginal: talentos da escrita periférica, tem como texto de abertura “Terrorismo literário” que explicita o intuito dessa arte que ecoa discursos periféricos no reservado espaço literário: “Quem inventou o barato não separou entre literatura boa/feita com caneta de ouro e literatura ruim/escrita com carvão, a regra é só uma, mostrar as caras. Não somos o retrato, pelo contrário, mudamos o foco e tiramos nós mesmos a nossa foto” (2005:9). Estaríamos diante de uma procura incessante pela legitimação de sua escrita? Não mesmo, esse não é o objetivo de quem escreve o que quer e por sua própria conta, como disse o líder sul africano Steve Biko. Protagonizar, falar de si para seus comuns, falar de si para xs outrxs, produzir os moldes e não apenas usar aquele pensado para corpos alheios, não ser mediadx, cerceadx ou estigmatizadx, ser arte preocupada com conteúdo SIM e criando a cada dia uma FORMA que precisa de uma nova forma para ser compreendida são algumas das muitas  características da produção literária marginal.
                O grupo Inquérito está em consonância com a responsabilidade que Biko nos deixou como herança de luta e vida na obra “Escrevo o que quero”. A música #PoucasPalavras se inicia com a provocação: “Por várias vezes já tentei falar / Têm poucos para ouvir / Muitos pra escutar / Os desanimados / O rap tá embaçado / Nóis ‘somo’ movimento / Mas estamos parado / Fazer o que né? / Os dois lados da moeda / Uns tão envolvidos, outros tão de para-quedas / É favelado querendo ser boy / boy querendo ser favela / Mas no final, quem corre mesmo por ela?!” A problemática das motivações, anseios e construções que o eu-lírico almeja para o rap é a apresentação dessa canção, a polêmica estabelecida logo no início é uma manifestação de descontentamento com alguns descasos e apropriações feitas dentro de um movimento fundado na contestação dos problemas de quem pouco tem. O grupo Inquérito provoca e frisa a importância de se re(fazer) e se re(criar) através de expressões singulares dentro de uma linguagem que carrega em si identidade e endereço. Ferréz também marca essa ideia no “Terrorismo literário” na continuidade da frase acima citada: “A própria linguagem margeando e não os da margem, marginalizando e não os marginalizados, rocha na areia do capitalismo” (2205: 9). 
                Após dar lançar a discussão que promovem em sua música, a letra segue e enuncia: "Vou dar um salve / pra quem não sabe / O rap tem base / Bagulho não é fase / Hoje a favela é moda nas tela / Cidade de Deus, Tropa de Elite,Novela / Nois grava disco,lança livro,faiz até sarau / Nois lava alma e depois põe pra secar no varal / Toca nos carros, toca nas rádios / Enche a auto-estima / Tipo torcida no estádio”. Há um movimento em franca expansão que protagoniza e reivindica a fala de si, promove seus próprios eventos e não pede “permissão” para construir sua expressão. Mais do que fazer uma ode vazia ao modismo intitulado “estética da violência” que invadiu o mercado editorial brasileiro no final dos anos 90, essa música marca temporalmente um crescimento gritante vivido pelas periferias atualmente que veio acompanhado da autonomia, do protagonismo e reivindicação | reinvenção de criação. Nesse mesmo sentido, escreveu Ferréz no texto aqui já citado: “Somos mais, somos aquele que faz a cultura, falem que não somos marginais, nos tirem o pouco que sobrou, até o nome, já não escolhemos o sobrenome, deixamos para os donos da casa-grande escolher por nós, deixamos eles marcarem nossas peles, por que teríamos espaço para um movimento literário? Sabe duma coisa, o mais louco é que não precisamos de sua legitimação, porque não batemos na porta para alguém abrir, nós arrombamos a porta e entramos” (2005: 10).
                O terreno da literatura contemporânea é muito escorregadio, a todo o momento nos deparamos com as armadilhas da valoração arquitetonicamente construídas pelos guardiões do portão que Ferréz anunciou arrombar. O sociólogo francês Pierre Bourdieu, em “As regras da arte”, aborda as relações e a composição do campo literário para perceber sua influência direta ao valor dado às obras. É inquestionável o fato de que o trabalho de editorxs, críticxs, professorxs, pesquisadorxs etc, atua na “eleição” das obras mais “relevantes”, “importantes” e “clássicos” entre outras alcunhas. Nem é preciso dizer que a produção periférica que hoje arromba portões e destrói muros, nem sempre é referenciada, aceita e estudada como literatura por grande parte dos agentes do campo literário.
                Mas para esse proposital esquecimento e silenciamento respondemos estratégica e frontalmente: “a arte que liberta não pode vir da mesma mão que escraviza” essa frase do poeta Sérgio Vaz, presente no texto “Manifesto da Antropofagia Periférica” está para além de um diálogo com a música do Inquérito, as duas selam o comprometimento com uma arte em que nós tenhamos nossas subjetividades levadas a sério, sem caricatos ou histórias únicas, hora de colocarmos tudo em nossos livros, fazendo eco atitude de uma das precursoras dessa expressividade, Carolina de Jesus. Fecho meu texto com a frase dos meninos do Inquérito: "vida longa à Literatura Marginal"!

Link para ouvir #PoucasPalavras, Grupo Inquérito: http://www.youtube.com/watch?v=m7jjltFXAaI


domingo, 15 de abril de 2012

Ferréz, Sérgio Vaz e Gog na I Bienal Brasil do Livro e da Leitura

Quem esteve hoje pela manhã na I Bienal Brasil do Livro e da Leitura, realizada em Brasília, teve a oportunidade de discutir os desdobramentos da Literatura Marginal com dois dos seus mais destacados representantes, os escritores Ferréz e Sérgio Vaz.  O cantor e poeta Gog mediou a mesa que tinha como tema a “Expressão literária e estética da periferia”, o debate se deu em uma quente tenda do caríssimo evento que traz para a cidade expoentes da literatura mundial como Alice Walker e Wole Soyinka. 
As interfaces entre o rap e a Literatura Marginal são simbióticas, como bem frisou Sérgio Vaz em dado momento de sua fala. Então, não é de causar estranhamento o fato de que parte do público fiel ali presente fosse composto por pessoas que viraram a madrugada no show do grupo de rap Racionais MC’s, inclusive os palestrantes e o mediador da mesa. Nada como um dia após o outro dia de agito para leitorxs e agentes da Literatura Marginal (hehehe).
Bocejos e cansaços à parte, Gog apresentou os participantes ao público e iniciou as discussões da manhã falando acerca do compromisso que o Hip Hop tem de promover mudanças na postura e na formação dxs jovens (seu maior público) oriundxs dos espaços da escassez.  O cantor considera que a literatura é uma das frentes do movimento que articula muito bem tal “função”.
Ferréz fez uma contundente fala no que diz respeito ao compromisso formativo que ele abraçou como sendo um dos objetivos de seu fazer artístico. O escritor disse que sua missão ali era “convencer leitorxs a serem viciadxs em literatura”. Alguns podem julgar antiquado o “tom messiânico” dado a tal arte, mas convenhamos que é muito fácil estabelecer entendimentos como esse quando se vem do espaço do conforto. Quem sempre esteve nas melhores escolas, com acesso aos mais diversos livros desde a mais remota infância e que precisa de mais de duas mãos para contar o número de viagens que fez ao exterior acha “chic” lidar com a literatura se preocupando apenas sua FORMA em detrimento de seu CONTEÚDO. Essa relação é a raiz de todo o preconceito destinado à Literatura Marginal que não teria sentido algum longe de sua motivação fundamentada na construção de conteúdos que desdobrem algumas transformações, nem que isso seja apenas um sonho para leitorxs e escritorxs.
Partindo da motivação de ser agente modificador de seu lugar, mesmo que em escalas homeopáticas, Ferréz falou da sua atuação como palestrante e oficineiro em escolas públicas e presídios de São Paulo. O mesmo disse entender a literatura como algo vivo, essa percepção leva o escritor a disseminá-la nos espaços onde a vida se forma e também se transforma. O autor leva de Dostoievski, a Plínio Marcos e Fernando Pessoa, dentre muitos outrxs, para reviverem sua arte a partir do momento em que são lidos dentro dos espaços que são esquecidos pelo Estado.  Ferréz é um escritor, roteirista, cantor e empresário exemplo do compromisso verbalizado por Mano Brown, na noite anterior, em ocasião do show dos Racionais MC’s na cidade: “Maloqueiro, cuide da sua esquina” #FicaAdica.
Sérgio Vaz, o escritor mais sagaz também nos domínios do “espaço das revoluções com jujubas”, o twitter, começou sua fala lendo o  texto “Literatura nas ruas”, presente em seu livro “Literatura, pão e poesia” (2011), que aborda a experiência do mesmo com o sarau da Cooperifa, realizado há onze anos, em São Paulo. O poeta, em sua fala, contemplou os problemas e as vitórias enfrentados por quem encara a missão de propagar a Literatura Marginal. Para ele, a Literatura Marginal não salva vidas como fazem as ONG’s, mas forma cidadãos e cidadãs agentes de transformações cotidianas no mundo. Não poderia ter sido mais pertinente a intervenção do aluno da rede pública e poeta Fernando, que recitou seu poema para a plateia e nos atentou sobre a sistemática vitimização que o olhar outro emprega à periferia.  O eu-lírico do poema de Fernando nega todas as interpretações derrotistas dadas à favela e anuncia seu fortalecimento identitário no último verso: “apenas um guerreiro seguindo na missão”. Alguém ainda duvida da agência da arte marginal nas vidas marginalizadas?
A arte precisa se fazer compreensível e a Literatura Marginal (re)inventa a linguagem para dar conta desse objetivo. Sérgio Vaz frisou esse aspecto singular da expressão marginal explicando sua dinâmica de tomada do conhecimento e transformação do mesmo no já citado “Literatura, pão e poesia”, a “antropofagia periférica” assim se faz.
A plateia foi bastante ativa no debate, muitas perguntas foram feitas e houve uma rodada de autógrafos e sessão de fotos com Ferréz, Gog e Sérgio Vaz ao final da mesa. Impossível conseguir transpôr aqui no tardia tudo o que pude absorver desta manhã tão significativa. Vida longa à Literatura Marginal que promoveu um debate dinâmico, enriquecedor e ainda nos agraciou com declamações memoráveis dos, além de tudo, divertidíssimos Sérgio Vaz e Ferréz. Finalizo retomando a frase de Renan Inquérito citada por Vaz em sua contribuição: “Se a história é nossa, deixa que nóis escreve”.

*Fica minha crítica à disfuncional, quente e abafada estrutura montada com recursos que chegam a 9 milhões de reais do dinheiro público para essa bienal. Tanta grana no meio e em um dia de evento já me deparei com um  mal planejamento estrutural combinados com uma equipe de recursos humanos um tanto falha e uma insuportável  montagem de arena política de deputados e secretários de governo nos atos solenes, aff!
**Troféu joinha para duas pessoas sem noção da produção que chamaram o Sérgio Vaz de Sérgio Sá duas vezes!! =S
***Chamar o twitter carinhosamente de “espaço das revoluções com jujubas” é coisa da querida Ludimila Moreira Menezes! ;P
****Todas as fotos são da Laetícia Jensen Eble querida. ;)

segunda-feira, 19 de março de 2012

Dois anos sem Dina Di

      Há exatos dois anos, no dia 20 de março de 2010, o cenário musical brasileiro sofreu uma grande perda, Dina Di, cantora e líder do grupo de rap Visão de Rua, faleceu em decorrência de complicações surgidas após uma infecção hospitalar contraída no parto de sua segunda filha. A ainda muito jovem Dina Di, com 34 anos, abandonou o barco desse mundo falido e deixou o rap destronado: se foi sua Rainha. Inquietante uma frase dita por ela na abertura do álbum "O poder nas mãos", de 2008, (  ♥♥♥♥♥ ) antecipando e sintetizando o que hoje sentimos frente a sua precoce e evitável morte: "a negligência pode resultar em tragédia".
       Nos últimos tempos eu andei muito imersa na história de vida dessa grande mulher. Lembro de ter ouvido o mega sucesso dela "A noiva de Chuck" nos tempos do colégio e tudo, mas eu não estava, na época, atenta ao significado daquela voz e presença num meio em que se contava nos dedos o número de mulheres. Dina Di desbravou não só o espaço feminino nesse gênero, mas o próprio espaço do rap em nosso país. Se hoje vemos uma cena em franca expansão, cada vez mais profissionalizada e capaz de auto-gerir seus shows e vendas de CD's, é porque algumas figuras construíram a ferro e fogo o lastro da mesma, sem dúvidas Dina Di foi uma delas.
       O primeiro álbum do Visão de Rua, "Herança do vício", de 1998,  trouxe à tona a voz forte da paulista Viviane Lopes Matias, ali já chamada pelo nome que impõe respeito e admiração para quem foi, é ou será amante do rap brasileiro. Trabalhada nas calças largas, tênis, camisetas e se refugiando no vestuário masculino para "infiltrar-se" entre aqueles que detinham o cenário do rap, Dina Di arquitetou sua arte e presença. A inteligência e a estratégia dela me impressionam, foi uma mulher muito refinada que se fez respeitar combinando letras fortes, ousadia e fortaleza como elementos que fundamentaram sua trajetória artística.
Tem uma entrevista muito fera que ela deu para o site Mundo Black ( link: http://www.youtube.com/watch?v=c_MwTgDUzHI) na qual a cantora diz que o rap era um espaço sem preconceitos, que ela como mulher não se sentia desmerecida e que a ausência feminina no gênero era apenas uma questão de falta de mulheres que quisessem  encarar algo que ainda estava sendo construído. Por mais que eu faça outra leitura dos problemas enfrentados pelas mulheres em muitos espaços, não só no rap, acho que ela conseguiu desbravar o insólito e fez de sua trajetória, vida e arte um marco para esse movimento musical tão comprometido com as mudanças urgentes do mundo desigual.
      Saúdo e agradeço à Rainha do Rap que ressignificou uma vida cheia de feridas, sem deixar que as suas cicatrizes desfigurassem sua poesia, mas sim a fizesse única. A vida dessa artista foi mesmo uma daquelas que nos faz perguntar: como ela conseguiu superar? Ainda na adolescência teve diversas passagens pela FEBEM, o pai dela, um mestre de obras, morreu engasgado com um pedaço de carne em um buteco, sua mãe, uma camelô, foi assassinada violentamente em sua própria casa com requintes de crueldade inacreditáveis e como ela conseguiu seguir, gente? Esse é o questionamento que me faço constantemente ao lembrar de Dina Di. A resposta ela mesma tratou de nos fornecer na já citada abertura do álbum do Visão de Rua: "Quando a gente sofre uma grande perda é como se ficasse um buraco na nossa existência  /  Por outro lado se eu não tivesse passado o que eu passei, perdido o que eu perdi, eu não teria profundidade como mulher, valeu a experiência". Sinceramente, eu acho pouco chamá-la de guerreira, Dina Di foi mais que isso. Imagina estar imersa na tristeza e conseguir transfigurar isso e ser madura o bastante para perceber as modificações internas que a tormenta fornece?!
Uma de suas últimas fotos com  Aline, sua filha.
 A Rainha do Rap cantou a esperança em muitas músicas como em "O poder nas mãos", cantou o amor na linda "É nóis", gritou para quem pudesse ouvir o problema da violência doméstica em "Dormindo com o agressor", cantou toda sua fortaleza em "Guerreira de fé", cantou sua fé em muitos trechos de suas canções como a "O filho pródigo", falou para a juventude acerca da violência urbana em "As coisas mudam", alertou  às jovens acerca das dificuldades enfrentadas por quem encara uma gravidez muito nova em "Marcas da adolescência", também falou dos entraves do mundo para a criação dos filhos na música "Meu filho, minhas regras",  relatou o cotidiano do sistema carcerário feminino em "Confidências de uma presidiária", enfim, Dina Di esteve na linha de frente do rap e da vida.
       Eis uma personalidade que me instiga e inspira, admirar sua arte e a forma com que esteve neste mundo é resultado dos ecos que ela construiu em suas músicas e posicionamentos. Dina Di, Guerreira de Fé, Rainha do Rap, sua voz se foi, mas os ecos dela em sua poesia são eternos. Só podia terminar esse textinho com uma frase dita pelo Helião, também no álbum "O poder nas mãos": "Ela é o máximo, luta, se esforça, tenta melhorar, tem sonhos, fica alegre ou triste por causa do amor, se não estivesse aqui, algo estaria faltando no rap, que o objetivo seja ação: Dina Di" ♥♥♥♥♥.

* Em muitos vídeos no Youtube, podemos revistar a voz e força das canções de Dina Di, há um em especial que nos apresenta outra faceta dessa artista, nele temos o registro da "face MPB" da cantora, vale conferir essa que foi uma de suas últimas gravações: http://www.youtube.com/watch?v=E7_BgvJHkjI&feature=youtu.be

quarta-feira, 7 de março de 2012

Por um 8 de março Rosa Parks ao som de Nega Gizza


Sou mulher, mas não sou tão frágil ou tão delicada
Meu microfone é minha arma
Minha palavra é como uma espada
Nega Gizza

Dessa vez eu não serei tardia (hehehe) e vim escrever algo sobre o 8 de março a tempo (milagre!).  O último post foi pesadão pra mim, trazendo várias reflexões sobre assuntos velados e que, por isso mesmo são muito caros a nós mulheres. Bom, pra minha lembrança do Dia Internacional da Mulher não ficar com o ranço da violência aqui no blogueiratardia, resolvi escrever um tanto sobre nossa força para encarar perrengues e as resistências cotidianas que forjamos para sermos possíveis nesse mundo falho.
O Dia Internacional da Mulher marca um episódio histórico de resistência na luta pela equidade de direitos entre os gêneros. No dia 8 de março de 1857, trabalhadoras de uma fábrica de tecidos em Nova York foram assassinadas quando se manifestavam a favor de melhores condições de trabalho, as trancaram e atearam fogo na fábrica em que se encontravam e isso resultou na morte de cerca de 130 tecelãs. Esse acontecimento é de extrema relevância para a luta de todas as mulheres, porém, aqui me reservo no direito de lançar meu olhar sobre uma batalha coletiva, mas muito íntima, travada pela mulherada preta que tece sutilmente suas ferramentas possíveis de guerra.
Esse texto é uma reverência à mulher negra que desencadeou um processo importantíssimo na luta pela igualdade dos Direitos Civis nos EUA: Rosa Parks ♥♥♥♥♥ #MáximoInfinitoRespeito! Não fiquei pensando nem cinco segundos quando me fiz a pergunta sobre que mulher preta cabulosa havia desencadeado desdobramentos tão ou mais reverberantes quanto os ocorridos após as mortes naquela fábrica. Constantemente, eu meio que separo as lutas nos meus textos néh??!!! Meu intuito com isso não é segregar cegamente, ser radical ou coisa do tipo, só considero importante pautar as diferenças que os  locais de fala guardam para si e o quanto colocarmos tudo dentro de uma única caixinha pode ser prejudicial. Exemplo mais repetido de todos, mas muito elucidativo: uma feminista branca que luta por igualdade de salários entre homens e mulheres pode, sem dor alguma, explorar uma trabalhadora doméstica negra dentro de sua casa e nem se coçar diante do ato abusivo. Feita minha breve defesa da especificidade da nossa saga feminina preta, parto logo pro anacrônico-encontro imaginado para o Dia Internacional da Mulher: “Larga o Bicho”,da Nega Gizza e da Yeda Hills e seu diálogo com Parks e seu feito. Diz aí se eu não ganho daquele personagem de desenho animado, o Bob Generic, nas minhas looongas viagens?! (hahahahahaha)
É lógico que eu resgataria um rap super querido pra falar do nosso dia, gente! A música “Larga o bicho”, da Nega Gizza e da Yeda Hills é um canto de luta e afirmação para todas nós, a mulherada preta. E para quem não conhece (acho difícil), a norte-americana Rosa Parks é um importantíssimo ícone de luta para os movimentos negros de todo o mundo. No dia 1 de dezembro de 1955, a costureira negra Rosa Parks voltava de um dia de trabalho e recusou-se a ceder seu lugar no ônibus em que se encontrava para que um branco se sentasse. Rosa Parks recebeu apoio do pastor (ainda desconhecido) Martin Luther King Jr. que em sua pregação pediu que a população negra apoiasse a costureira, a partir daí iniciou-se o “Boicote aos ônibus de Montgomery” que pautava o fim da segregação racial nos EUA e que teve duração de 381 dias. O eu-lírico da canção da Gizza diz: “Não sou do tipo que diz não, querendo dizer sim / Nem do tipo falem mal, mas falem de mim (...) Sou nega na pele e na mente / Isso me faz valente / Pois sei que sou descendente do guerreiro zumbi”. Parks não veio com meias palavras, meias atitudes e colocou pra jogo sua força contra a opressão com o pouco que tinha diante do poder do homem branco referendado por um Estado poderoso, estavam ali no ônibus: seu corpo, sua voz, sua escolha, seu cansaço, um tanto de medo, acredito, e os ecos de toda uma linhagem de #MulheresPretasGuerreiras.
Organizar-se diante das opressões é uma eficaz forma de diminuí-las, porém tais atos podem ocorrer de maneiras diferentes como, por exemplo, resguardando as sutilezas das armas que se têm, o cientista político James Scott chama esse movimento de resistência cotidiana. Tal conceito é um dos que eu mais gosto e que diz muito dos movimentos de resistências negras, tapão na cara de quem diz que historicamente aceitamos tudo de forma apática. Nossa Rosa Parks resistiu de forma tão “simples” naquele dia, mas de maneira tão contundente que até hoje a reverenciamos e levamos o ensinamento de sua coragem de geração em geração. Numa entrevista em 1992 a própria Parks explicou: "Meus pés estavam doendo, e eu não sei bem a causa pela qual me recusei a levantar. Mas creio que a verdadeira razão foi que eu senti que tinha o direito de ser tratada de forma igual a qualquer outro passageiro. Nós já havíamos suportado aquele tipo de tratamento durante muito tempo". Parks não era uma feminista acadêmica ou uma protegida que não podia sair de casa sem o pai ou o marido, era uma trabalhadora preta que queria voltar para sua casa depois de um dia de trabalho, pra mim esse é o limiar que diferencia as lutas de mulheres com origens e anseios tão diferentes.
Sua soberana força troca ideia com os versos de Gizza e Hills: “Mulher preta de espírito guerreiro / Quem é, é, sem caô, sem despero / Não sou mulata, não sou mula, sou canhão/ Sou granada que explode a solidão”. Rosa Parks estraçalhou a solidão de quem cedia seus lugares nos ônibus por medo ou por sobrevivência e convocou milhares de pessoas para mover a engrenagem do receio e tentar transformar a base: #IHaveADream!
            As guerreiras do cotidiano, herdeiras e irmãs de Rosa Parks, estão espalhadas por muitos espaços (AINDA BEM) e certamente levam consigo o entendimento explicitado nos versos de Nega Gizza: “Trago na pele a força e minha juventude/ Trago na massa encefálica a negritude/ Trago a virtude que confunde o imbecil /Piscou o olho fuuu fumaça subiu”. Nada da apatia de quem espera acontecer, nada de esconde-esconde, nada de temer o homem que se julga soberano: essa canção é injeção de força na veia!  Tenho total conhecimento de que extremar o subjetivo é dose, referendar o estereótipo de que mulher preta é forte e agüenta tudo já nos ferrou muitas vezes! Não quero fazer isso! Apenas quero registrar, no dia de hoje, que nossa coragem move boicotes, transformações e molda o barro-argila das vidas e isso é muito particular.
            “Larga o bicho” segue para seu fechamento com os versos: “A vida é uma escada /Um degrau após o outro / Rumo ao topo/ A linha ao topo/ A linha de chegada/ Sou mulher,mas não sou tão frágil ou tão delicada/ Meu microfone é a minha arma/ Minha palavra é como uma espada” #TeMETE!! Delicadeza e fragilidade são outros estereótipos construídos para que as mulheres permaneçam no crivo dos mandamentos machistas, fugir disso é estar armada, é ser Rosa Parks não ficando calada, é galgar degraus, ultrapassar linhas de chegada e construir topos só nossos.
            Numa data criada não apenas para darmos os “parabéns” para as mulheres, mas sim para refletirmos acerca dos fossos ainda grandes que diferenciam as mesmas dos homens em diversos aspectos, é importantíssimo pensarmos nas diferenças também alimentadas dentro da grande categoria mulher. Os privilégios raciais, muitas vezes “cordiais”, ainda reservam lugares de prestígio nos ônibus imaginários que podem ser as universidades, o mercado de trabalho, a política etc. Finalizo meu texto marcando a necessidade de refletirmos sobre essas fissuras internas da categoria mulher, fera demais comemorar as vitórias, mas ficar só no confete é ceder lugar pro opressor sentar no baú e ainda curtir a paisagem da janelinha. 

8 de março Rosa Parks ao som de Nega Gizza pra vocês!




segunda-feira, 5 de março de 2012

Rosas e Atitude para Ponciá


Acontecimentos violentos carnavalescos, uma música ouvida no celular a espera de um voo atrasado (Rosas, do Atitude Feminina ) e a lembrança de uma personagem querida (Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo ♥♥♥♥♥) foram a mistura que eu venho maturando desde o fim da festa da carne e que só desemboco aqui agora (tardia, oi?!), às vésperas do 8 de março, mas isso tem seu segredo de sentido, tenho certeza.

Há mais de uma semana que eu comecei a escrever esse textito, começava e parava, começava e parava, assim como o ciclo vivido por mulheres que tentam se desvencilhar da violência: começam e param diversas vezes, o medo fala alto e o recuo surge como a saída mais viável. Difícil lidar com a violência sempre e sempre, seja na #RealLife, seja nas representações artísticas e isso fez com que essa escrita não fluísse bem como as outras, enfim.
Muitas imagens e acontecimentos de agressões contra mulheres vieram me “visitar” nesse carnaval, "vi" de perto o que a gente não quer ver nem a quilômetros de distância. E aí, né?! O que fazer diante dessa merda toda é uma angústia que parece sem fim, uma estupidez que o discurso teórico-feminista ainda não me “ensinou” a enfrentar de forma eficaz. Vamos combinar também que eu nem tento mais esse tipo de resposta, pois para mulheres que não se encaixam no perfil padrão-clássico- feminista, os caminhos jamais seriam iguais: ok. Diante disso,  com o auxílio das mãos de verdadeiras sistas pretas, apostei minhas fichas na solidariedade e o refrão #SozinhaCêNumGuenta me salvou da doideira que é tentar montar o quebra cabeças do mundo opressor.
Isso rolou há uns quatro anos atrás, quando algumas “amigas pretas poder”  (Candaces ♥ ) resolveram montar um grupo para ler outras pretas poder elevadas a milésima potência (!!!) e as personagens dos livros que ali conheci se tornaram minhas terapeutas, gente! (hehehehehee). Na verdade, a maioria delas me deixava era loka dentro da roupa com as dores de suas vivências até eu entender que apagá-las de certas narrativas é esconder o indesejado em baixo do tapete.
Ainda bem que as mulheres pretas costumam pegar as dores, as pedras do caminho e acabam construindo castelos daqueles! Bota fé?! É isso que as meninas do grupo de rap aqui do DF “Atitude Feminina” ♥ realizam em sua trajetória de forma muito especial. E nessa de buscar nas trocas internas, na solidariedade e cumplicidade os motes-vida é que fiquei viajando (literalmente, voando de volta de um carnaval meio yin-yang) num encontro entre a música dessas garotas e a amada protagonista do romance Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo, escritora afrobrasileira contemporânea daquelas que encaram os problemas e tenta nos fazer potentes diante daquilo que nos emudece.


Ponciá ecoa a voz de tantas jovens negras que saíram do meio rural e foram para a cidade trabalhar como empregadas domésticas em busca de sonhos (alguém aí tem uma mãe, avó, tia, prima ou amiga com essa história?). O problema é que a cidade tem um sonho próprio no qual as Ponciás só cabem beirando as margens e lotando os puxadinhos. A trajetória de Ponciá Vicêncio não se difere das histórias não-ficcionais conhecidas por nós, as explorações dissecadoras da mão-de-obra, as péssimas condições de moradia, a educação e a saúde figurando como artigos de luxo e a necessidade de sustentar-se nessa corda bamba com as marcas deixadas por um marido violento são alguns dos fatores que levaram Ponciá a viver num mundo silencioso a parte. Tenho um palpite: se um encontro entre as sistas de Sobradinho não arrancasse nossa amiga Ponciá de vez da dor-apatia, ao menos a faria sentir-se acolhida: #SozinhaNinguémGuenta. 
A parte foda das escrivivências de Evaristo e do Atitude Feminina é a parte foda da vida: encarar as verdades de frente. Na maioria das vezes a gente quer ouvir o amor, a risada, dançar e esquecer a parte complicada de existir quando buscamos nos deleitar perante diversas manifestações artísticas, mas também podemos ir até as mesmas no intuito de diluir nela boa parte dessa parte foda. A música “Rosas”, das meninas do Atitude, traz para a cena do rap a escamoteada violência contra as mulheres e logo no começo denuncia: “A cada quinze segundos uma mulher é agredida no Brasil / E a realidade não é nem um pouco cor-de-rosa / A cada ano dois milhões de mulheres são espancadas por maridos ou namorados”. Essa estratégia de informar através da música tem retorno de compreensão muito rápido, considero incalculável o impacto dessa letra na vida de quem só vê amarras, é uma conversa com amigas verdadeiras e (conhecimento de causa) nada é mais revelador do que essa sincera troca.
Assim como a protagonista de “Rosas”, Ponciá Vicêncio ficou encantada por seu companheiro, a paixão veio de encontro a ela ali no meio da grande cidade: o pedreiro e a empregada doméstica resolveram construir uma vida juntxs. Conceição Evaristo foi delicada e muito responsável na construção das trajetórias de suas personagens, inclusive na representação do companheiro de Ponciá revelando ao(a) leitor(a) o fosso que escondia a violência que o mesmo destinava a ela. Bom, nesse texto eu não estou muito solidária (posso?!) com as pesadas cargas que arquitetam a subjetividade do homem negro de forma a fazê-lo reproduzir no espaço privado a violência que o assola no espaço público: um problema de cada vez. =O
O relato de atitude das meninas de São Sebastião prossegue com a narrativa para o momento em que as coisas mudam entre o casal: “Mas alegria de pobre dura pouco, diz o ditado/Ele ficou diferente agressivo, irritado/ Chegava tarde da rua aquele bafo de pinga/ Batom na camisa e cheiro de rapariga”. O mesmo ocorreu com o relacionamento de Ponciá e a protagonista passou a “conviver” com murros, olhos roxos, hematomas e o silêncio foi sendo firmado entre ela e seu agressor: não mais palavras onde antes cumplicidade. O senso comum, principalmente nas gerações passadas, imprimiu às mulheres que o comportamento adequado das mesmas diante do casamento é o da submissão e o lema “casamento é para toda a vida” forjou uma casa perfeita para o patriarcado promover seus mandos e desmandos.
O desfecho da situação protagonizada pela personagem do Atitude não poderia ser pior: “Começou a quebrar tudo loucamente lombrado / Eu falei que estava grávida ele não me escutou / Me bateu novamente mais dessa vez não parou / Vários socos na barriga, lá se vai a esperança / O sangue escorre no chão, perdi a minha criança/ Aquele monstro que um dia prometeu me amar / Parecia incontrolável eu não pude evitar / Talvez se eu tivesse o denunciado / Talvez se eu tivesse   o deixado de lado”. Alerta mais substancial que esse eu tenho pouca imaginação para formular. Tudo muito pesado, intenso, doloroso pra quem ouve, mas com incentivos de liberdade pra quem vive. Ponciá Vicêncio no meio de seu silêncio interrompido apenas pelas socadas do companheiro poderia viver a interrupção do mesmo através dessas Rosas a ela ofertada.
Esse texto é mais um devaneio de quem imagina como seria voltar ao barro origem (desejo reiterado por Ponciá durante toda a obra) fundador de nosotras sistas pretas, talvez isso modificasse tantas coisas! A mudança é motor das vidas neh?! Então que nossa força o gire muito e faça com que o nó na garganta que insiste em nos acompanhar se desfaça o quanto antes, todo dia e sempre. Um 8 de março de barro origem, rosas e atitude para vocês, companheiras! ;)




domingo, 12 de fevereiro de 2012

Por um mundo mais humano no quarto de despejo

           Essa semana o meu livro #PoucasPalavras, do Renan Inquérito, chegou aqui na minha caixinha de correio, ainda não tive tempo de ler tudo, mas grande parte do que li já me cativou.  Fiz igual criança que abre o livro e busca primeiro as gravuras (hehehe) e nisso dei de cara com uma ilustração do grafiteiro Mundano  ♥, artista com a incrível capacidade de falar muito através das imagens: #PoucasPalavras.

Grafittis do Mundano em diversas carroças de catadorxs. 
Mundano (nome surgido da combinação das palavras MUNDO + HUMANO) primorosamente ilustrou o livro de Renan Inquérito, o que resultou num trabalho de conversas líquidas entre forma e conteúdo. A página 119 chamou minha atenção logo de cara, nela há uma arte que faz eco ao projeto muito fera, encabeçado pelo grafiteiro, chamado Cidades Recicláveis. Essa ação consiste em lançar mão das carroças dxs trabalhadorxs catadorxs de materiais recicláveis como veículo de mensagens entre esses, o artista e a cidade.  Mundano, em muitas entrevistas, diz que a ideia da valorização de um trabalho tido como abjeto pela população figura como mote primeiro do projeto. Impossível seria esse trabalho não me remeter à Carolina de Jesus    , autora do muito estimado Quarto de Despejo: diário de uma favelada, lançado em 1960, obra em que a escritora retratou seu cotidiano como catadora de lixo e moradora da favela do Canindé e enunciou: “Quem trabalha como eu tem que feder!” também na página 119!
            Fato que a coincidência maior aqui não é o número igual das páginas, mas a crítica à sociedade que pretende esconder o indesejado em baixo do tapete do quarto de despejo. Na cena em questão, Carolina estava refletindo acerca dos comentários que uma mulher fez ao passar por ela dizendo que seu cheiro era horrível, semelhante ao do bacalhau. A escritora, que deu sentido à literatura pra mim, disse a tal senhora que havia trabalhado muito, carregado mais de 100 quilos de papel, que estava calor, que o corpo humano não prestava e finalizou: “quem trabalha como eu tem que feder!” repito no texto, uma vez que nada no mundo literário me arrepiou tanto nessa vida.  Em diversas passagens do seu livro, Carolina diz que a favela é o quarto de despejo da cidade, assim como seus moradores são o lixo da mesma. Carolina já denunciava a relação nada amistosa que a cidade alimenta com quem trabalha com o lixo e vive no espaço do despejo, arquitetado por seus poderosos nas primeiras décadas do século XIX, as favelas.   
          Mundano já pintou mais de 150 carroças nas cidades de São Paulo, Nova York (EUA), Buenos Aires (Argentina), Santiago e Valparaíso (Chile) e agora tem a empreita de levar o trabalho para outras cidades brasileiras. O grafiteiro atua em conjunto com xs catadorxs, inclusive as frases são idéias dos mesmos. O profeta Gentileza leva (pois ainda estão lá) palavras bonitas, para a vida de milhares de pessoas que circulam pelo caos citadino, através do muro estático, o alcance de várias carroças que se movem por todos os cantos da urbe é tamanho, ótima ideia, ótimos recados! 
        As pessoas não têm noção da dimensão do trabalho dxs catadorxs de material reciclado diante da cidade. Segundo o IBGE, na Pesquisa Nacional de Saneamento Básico de 2000 (imaginem isso hoje!), mais de 125 mil toneladas de resíduos domiciliares são coletadas todo dia no Brasil. Historicamente, os trabalhos de menor prestígio são ocupados por pessoas pobres, sem estudo formal e negras, ou seja, xs despejadxs. Esses que a cidade quer invisiveis, desde os tempos de Carolina, são agentes transformadores do excedente da mesma, Carolina refletiu sobre isso e disse: “Nós somos pobres, viemos para as margens do rio. As margens do rio são os lugares do lixo e dos marginais. Não mais se vê os corvos voando nas margens do rio, perto dos lixos. Os homens desempregados substituíram os corvos” (2005: 48). Combater o preconceito e a ignorância com arte é uma gentileza dxs artistas do reciclo, do grafite e da escrita com o mundo.

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Instalação audiovisual que reproduzia as paredes do barraco de Carolina
Uma das frases dxs catodores pintadas por Mundano nas carroças diz: “Meu trabalho é  honesto e o seu?”. Essa é uma das muitas alfinetadas que Carolina de Jesus destinou aos políticos em  uma obra, a autora tinha uma perspectiva muito aguçada das manobras políticas diante da favela: “Eles gastam nas eleições e depois aumentam qualquer coisa. O Auro (deputado federal na ocasião) perdeu (dinheiro no período eleitoral), aumentou a carne. O Adhemar (governador de São Paulo naquele ano) perdeu, aumentou as passagens. Um pouquinho de cada um, eles vão recuperando o que gastam. Quem paga as despesas das eleições é o povo” (2005: 114).  Com certeza Carolina de Jesus gostaria de pintar em seu carrinho (ela o chama assim) de catar papel: “Reciclem os políticos”. 
          O trabalho dxs catodorxs é alvo de milhões de violências, a discriminação experenciada por essas pessoas é algo de uma agressão tão profunda que rouba minhas palavras quando tento elucidá-la. Quando eu era criança, meu pai me explicou o motivo pelo qual ele sempre andava perfumado e bem arrumado. Senhor Huanderson era lanterneiro e pintor de automóveis, o que o obrigava a trabalhar sempre molhado, sujo de tinta, suado etc. Hoje, ele é tem sua própria loja, já caminhou muito na vida e alcançou um novo posto social (inshalá!rs), quando ele contou pra mim o porquê de andar arrumado quando estava fora do trabalho eu tenho certeza que não compreendi bem (era pequenina), mas ficou na memória o fato dele sempre ter me mostrado as muitas faces do racismo que, quando combinado às situações de trabalho subalterno e racializado, acaba forjando amarras ainda mais potentes de opressões que ele tentava minimizar a sua maneira. A relação do nosso corpo com o trabalho é cheia das escalas de diferenciações, gradações de cor, de ambiente, classe e muitas outras influências. Carolina de Jesus, alvo de constantes acusações sobre sua limpeza, desabafou em seu diário: “SE ESTOU SUJA É PORQUE NÃO TENHO SABÃO” (2005: 89). A autora, na citação que fiz bem no começo do post, fala da relação do seu corpo com seu fazer, aqui ela reflete sobre sua condição econômica de miséria e as implicações disso diante da sua apresentação pessoal. Por mais que pareça improvável (há quem possa achar que é só um desenho numa carroça), o trabalho do Mundano age diretamente sobre a autoestima de quem, por suas condições de trabalho, se vê sempre sujx, potencializando, então, os apontamentos de toda uma sociedade que hostiliza o que não se encaixa em seus padrões.
         O grafiteiro e xs catadorxs encontraram uma forma perspicaz de piscar prxs outrxs cidadãos e cidadãs em frases como: “Meu carro não polui e o seu?” ou “Agente ambiental trabalhando, não buzine”. Essas cutucadas são de uma sutil ironia, muito gentis e cheias de efeitos, o velho e eficaz tapa com luva de pelica: faço meu trabalho, garanto sobrevivência pra mim e melhorias pra você, cidade, me respeite. Carolina de Jesus, não apenas nessa obra, mas também em seu Diário de Bitita, nos leva a um mergulho sobre a vida infausta, como ela mesma se refere a sua. São muitas as agruras de quem está nas ruas, é viver, é morrer, tudo junto numa angustiante combinação. Longe de mim colocar flores onde muitos dissabores, mas longe de mim também podá-las. Tiro muito meu chapéu para quem tenta modificar nossos cenários sociais engessados e sufocantes, Mundano, em parceria com o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, faz isso a olhos vistos. Temos a arte atuando como agente contrária à invisibilidade que a cidade imprime, seja ela sendo expressa nos muros, nos livros, nas músicas, nos diários ou nas carroças.


* A montagem das quatro carroças com a arte do Mundano, assim como a fotografia final, foram retiradas do endereço: http://tedxveropeso.blogspot.com/2011/08/mundano-arte-como-instrumento-de.html
** A segunda imagem é uma instalação audiovisual montada na ocasião do “Seminário 50 anos do quarto de despejo” que reproduzia as paredes do barraco de Carolina na favela do Canindé, disponível em: http://comunidadequilombaque.blogspot.com/2010/11/quarto-de-despejo.html