segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A dita classe C e as possíveis mudanças no rap


Está para surgir novidade que cause tanto debate quanto a tal “ascensão da classe C”. A preocupação em avaliar o impacto do consumo da “nova classe” é discutida com alvoroço e frisson em diversos setores. Recentemente, Brasília foi palco de um evento que refletiu acerca desse advento econômico brasileiro com mais densidade do que vem ocorrendo. O projeto RAPensando (que reuniu shows de artistas do rap do DF e outros Estados durante todo o mês de julho) encarou a responsabilidade de promover um debate acerca da nova classe média e as possíveis mudanças que isso ocasionou no rap. Qual seria a relação do avanço econômico com avanço do rap em termos de público e mídia?
Os artistas Marechal, Higo Melo (Ataque Beliz), Dino Black (ex – Morte Cerebral) e MC Ahoto, sob a mediação da jornalista Yalê Gontijo, protagonizaram a conversa acerca do impacto dessas novas dinâmicas no meio em que atuam. Esse texto não é uma reportagem do que ali foi dito, já passou o tempo de ser uma notícia, mas sim, uma breve reflexão acerca das ideias que ali surgiram.
Segundo dados da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República*, está na classe média quem vive em uma família de renda mensal per capita entre R$ 291 e R$ 1.109. Então, se o somatório dos salários e rendimentos de quatro pessoas de uma família superar R$ 1.164 por mês, todos serão considerados de classe média. O crescimento econômico brasileiro e as políticas públicas de distribuição de renda são alguns dos responsáveis para que um número cada vez maior de pessoas pudesse lançar mão de diversas ferramentas, produtos e serviços outrora nada acessíveis. Pensando no nosso cotidiano, é evidente que a possibilidade de comprarmos computadores, celulares, termos acesso à internet ou mesmo termos os dois reais para pagarmos a hora da lan house confere novas formas de lidarmos, inclusive, com a arte. No entanto, a fala dos artistas aqui citados alerta para o fato de que essa “facilidade” pode escamotear outros interesses. A discussão da mesa foi norteada pela comum compreensão de que a categoria “classe C” é configurada mais como um discurso dissolutivo empreendido pelo Estado e pela mídia coorporativa que visa o desmantelamento de algumas posturas combativas, do que como um evento que desencadeie mudanças efetivas nas classes sociais.
O rap está acostumado a ter como matéria os acontecimentos políticos, sociais e econômicos historicamente maquiados pela máquina estatal. Se deparar com percepção de artistas que colocam para jogo a estagnação existente nessa tramada mobilidade é algo inesperado para os que forjam as ilusões de bem estar para a classe que carregou “Brasis” nas costas. Os(as) artistas do rap que não compraram o discurso estatal-midiático da explosão do consumo da classe pobre estão na contramão da ideologia, essa que tem como objetivo fazer o(a) dominado(a) acreditar e agir como se a exploração fosse natural ou até mesmo “glamourosa”, vide a jornada de gliter que inventaram para as empregadas domésticas das novelas.  Todo esse confete para cima da “classe C” me instiga e me transformou em um ser que pisa em ovos diariamente. Já olhei com mais otimismo para esse evento, não quero, absolutamente, negar os avanços, temos mais jovens de classes populares nas universidades hoje, porém não é bom perder de vista que as exclusões são apenas atualizadas nessa sociedade. Há vinte anos, ter um diploma superior garantia um salário que sustentava a família “clássica” com tranquilidade, atualmente esse mesmo diploma sustenta o eterno aperto do cheque especial sempre no vermelho, o carnê das Casas Bahia, os infinitos juros dos cartões de créditos e daí, o patrão está lucrando menos com isso?
A parte boa dessa instrumentalização da classe C como a educação, o acesso à comunicação e aumento da autoestima dos jovens da periferia precisa ser trabalhada para que não caiamos no fosso arquitetado pela ideologia: a improdutiva sensação de “bem estar social”. O rap e toda uma gama de agentes que atuam sem o braço do Estado como as mídias alternativas e as ONG’s (algumas delas), estão formando boa parte da juventude herdeira de anos de exploração de toda uma classe e isso fez com que o poder começasse a forjar mecanismos que freassem a sagacidade reflexiva que essa combinação pode causar. Daí o burburinho e a cansativa repetição de que o rap está mudado e expressando uma variedade temática inédita. Será mesmo que o rap mudou seus temas ou o poder estatal-midiático percebeu nele um potencial agente de reflexões e resolveu criar uma caixinha oportuna de “futilidades” para enquadrar sua produção?
MC Marechal, quando questionado na mesa acerca dessa “mudança temática” do rap, respondeu que sempre existiu variedade temática no gênero, mas o que ocorre hoje é a tentativa (já tão repetida) de apropriação de algumas manifestações genuinamente populares por parte das elites. Assim fica fácil manipular: ou o rap tem de ser sempre guetizado ou diluído para ser consumido por um público maior e comercializado nos meios de comunicação que estão a serviço da ideologia.
O lema punk setentista do “faça você mesmo” é importante para a configuração do momento que estamos vivenciando. A manipulação de ferramentas sofisticadas e equipamentos refinados deixou a precariedade no passado, o rap hoje é produzido com alta qualidade técnica e a agência comunicativa de seus produtores(as) expandiu seu consumo de forma considerável. O otimismo temático que a ideologia tenta referendar para o rap hoje é um fosso perigoso. Manipular a falsa impressão de que seus temas estão diversificados pode ser mais uma forma de promover o “bem estar social” e facilitar sua “apropriação” por parte das elites, como bem colocou Marechal.
Esse debate tem mil pormenores, construir pensamentos ao passo que as coisas estão acontecendo é estar disposto a re(formular) ideias constantemente. O rap é um gênero disposto a desconstruir discursos, prisões e violências a partir de matéria do cotidiano e isso o obriga a empreender uma autorreflexão sobre sua cena sempre. A discussão empreendida no projeto RAPensando deixou o alerta para que estejamos atentos(as) à ilusão que querem nos vender. Ser empregada doméstica não é tão glamuroso como diz a novela das sete, a “modernização” das cidades que receberão a Copa do Mundo e as Olimpíadas não é tão benéfica quanto parece (essa classe C “consumista” está indo viver onde agora?)**. Diluir o discurso do rap em litros de água com açúcar e no “avanço da classe C” pode ser o desenho de uma alegria vaporosa tão falsamente ilustrativa quanto a das Empreguetes.


*  Fonte “O que define a classe média”, por Moreira Franco e Ricardo Paes: http://www.sae.gov.br/site/?p=12489
**  Texto bacana sobre esse problema aqui: http://rioonwatch.org.br/?p=3464

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Desde que o samba é samba


Na cadência bonita de um samba recriado pela ficção e enredado pela História, temos a composição da matéria de Desde que o samba é samba (2012), novo livro do Paulo Lins, uma obra pra ser ouvida e lida entre a poltrona e o youtube, interação blaster!

Paulo Lins que desde Cidade de Deus (1997) não havia mais publicado, retoma sua obra marcada pela etnografia, agora publicando pela Editora Planeta. Lançado no fim de maio, Desde que o samba é samba revive para sempre, nas páginas de um romance, os versos primeiros de um ritmo-poesia criado pelxs descendentes de ex-escravizadxs.

Entre personagens ficcionais e históricos, Lins recria o cenário de um Rio de Janeiro marcado pela política higienista que norteou aqueles anos de 1920. Naquele tempo, a liberdade para negros e negras era cerceada pela aplicação da “lei da vadiagem”, naquele tempo a dita “malandragem” de alguns guardava apenas a resistência de quem era obrigadx a estar na margem e ser capoeira para sobreviver.  

Ismael Silva é a personagem que sintetiza o tom efusivo, alegre, mas também recheado pela poética melancólica que preencheu os versos iniciais do nosso samba. Sua história é uma das que compuseram as muitas narrativas formadas no burburinho da zona central do Rio de Janeiro, o Estácio, o berço do samba. Paulo Lins convida x leitxr a ser um flanêur do início do século XX, não apenas para contemplar a cidade, mas para sentir o que os morros, os inacessos e os grandes encontros no centro representaram para a interação cultural das pessoas ali viventes.

Brancura (Sílvio Fernandes) é a personagem principal do romance, o escolhido por Lins para protagonizar parte da ficção que amalgama seu romance à História. O triângulo amoroso vivido por Brancura, pelo português Sodré e pela prostituta Valdirene prende x leitxr que é rapidamente capturado pelas traições e os sentimentos densos que unem essas personagens. A relação dos três é costurada no pano de fundo de um Rio de Janeiro cantado pela efervescência do samba.

É na tessitura desse triângulo de amores que a dívida de Lins com x leitxr se faz. Assim como ocorreu em alguns momentos de Cidade de Deus, há lacunas entre as narrativas ficcionais e o fundo histórico da obra que ora pesam, forçam situações e didatismos, ora se desprendem e deixam os fios do contar soltos. Outro incômodo no texto de Lins, para mim, é a mão naturalista que sobrecarrega a construção dele. Me desagrada profundamente preterir a agência da escolha para algumas personagens, o corpo ainda grita nas linhas de Paulo Lins e isso me soa atemporal e até irreal.
A solução, tenho certeza, ficará na mão de um Fernando Meirelles da vida. Desde que o samba é samba é uma obra que ficaria muito bem se transposta para as telas, é para ouvirmos “Me faz carinhos”, do Ismael Silva, embalando o atribulado amor de Valdirene e Brancura. Trata-se de uma narrativa cinematográfica, a cada página eu imaginava as ruas, a casa da Tia Almeida (a Tia Ciata!!), os instrumentos recém-criados, os terreiros de Candomblé, as casas de Umbanda nascidas juntas com o samba e suas escolas, enfim um mundo inteiro que o cinema teria grande prazer em recriar. (Ajuda ler o livro e assistir ao filme “Noel, o poeta da vila”, justamente por conta da ambientação das ruas e das entradas fonográficas).

Por mais que eu tenha apontado alguns ranços no enredo de Lins, recomendo esse livro fortemente para quem eu puder. Ler uma obra que faz nossa mente manipular cenas recriadas por uma memória musical vinda do quintal da nossa casa é muito precioso! Paulo Lins me ganhou com esse segundo romance, reconheço há muito a importância dele que abriu portas para que escritores como o Ferréz <3 despontassem no campo literário brasileiro, mas ainda não o tinha como um querido das letras. Agora isso acontece e aguardo ansiosa por mais obras, ah, e por mais desapego às cenas um tanto naturalistas!

Desde que o samba é samba retrata um momento divisor de águas para a subjetividade criativa de um povo explorado por séculos e que ali, em meados dos anos de 1920, começou a articular o movimento musical que o fortaleceu em luta e estima. Lins finaliza seu livro com esse tom: “Até o vento fazia a curva em causa própria, assim como as pessoas que sentiam aquela energia vinda da criação artística para superar a vida em que o povo negro da pós-escravidão colocou a cultura como arma para conquistar dignidade com duas batidas fortes no surdo feito deixa para o solista sair improvisando (...) Tiveram a ideia de fazer parte da sociedade em forma de canto, mas mesmo assim foram espancados pela polícia, sofreram desdém, foram presos, tiveram a dor do preconceito, mas saíram sambando em busca de uma avenida para fazer dela uma passarela com o reforço do tamborim, do reco-reco, da cuíca e do surdo” (LINS, 2012, p. 294).

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Rap brasileiro, rap estadunidense e a busca pelo status de "arte"


O livro “Vivendo a arte: o pensamento pragmatista e a estética popular” (1998), de Richard Shusterman, rende uma boa leitura para quem curte, escuta, se interessa por arte popular, especialmente por rap. Shusterman é um filósofo pragmatista que busca construir uma legitimação estética e teórica para a arte popular na obra em questão. Para isso, o autor mergulha na análise do interessante cenário que o hip hop vivenciou em sua formação nos guetos nova-iorquinos do final da década de 70 ao começo dos anos 90, quando houve o lançamento da obra.
O livro é acadêmico, inegável o fato, mas Shusterman empreende um tom bem didático e tranquilo de ler nos dois primeiros capítulos da obra que discutem a arte enquanto teoria oscilante entre a experiência e a prática. O terceiro capítulo intitulado “Forma e Funk: o desafio estético da arte popular” traz uma discussão sobre os esquemas de valoração antagônicos empreendidos na classificação do que é bom gosto e o que não é, e como isso é usado como impedimento para analisar as artes populares a partir de critérios estéticos tradicionais.  O quarto capítulo “A arte do rap” é o que julgo ser mais relevante na obra em questão, nele Shusterman, através da análise de uma letra de rap do grupo Stetsasonic, demonstra o porquê do rap ser um gênero “capaz” de satisfazer os critérios impostos pela tradição estética. O quinto capítulo versa sobre a forma com que arquitetamos o nosso viver ética e esteticamente no pós-modernismo (é um capítulo muito do chatoooo).
Já que eu tô no meu blog, posso fazer uma resenha do jeito que eu quero! (hehehe). Eu aguardei ansiosamente a discussão desse livro na matéria que tô fazendo da Pós, tinha lido algumas partes soltas dele, incluindo a introdução, e salvo alguns deslizes, percebo discussões muito interessantes desenvolvidas no livro do Shusterman. De uma forma geral e bem por cima, o intuito do Shusterman é discutir a arte como parte integrante da práxis cotidiana das pessoas desde sempre, para isso ele lança mão da teoria estética pragmatista que define arte como experiência, mesmo sendo essa uma definição complicada para os moldes filosóficos tradicionais.  O autor faz várias ressalvas quanto a isso, retomando a discussão feita por Adorno que descreditou o reconhecimento pragmatista da funcionalidade artística, Shusterman o rebateu afirmando o exato contrário disso, para ele a arte não pode ser separada da vida e da funcionalidade, mas fez isso diante de muitas ressalvas também. Fazendo uma mea culpa, Shusterman indica um possível “meliorismo” do pragmatismo em relação a arte popular: reconhecer suas falhas estéticas e seus abusos políticos, assim como seu potencial estético e sua grande capacidade de comunicação para uma práxis progressista” (1998: 11).
O caminho teórico do autor cansa o leitor lá pelas tantas, ele anuncia reiteradamente aonde quer chegar, seu objetivo é repetido diversas vezes: construir uma legitimação teórica para as artes populares que poderá ajudar na mudança de algumas atitudes tradicionais em relação a mesma para que isso, de fato, mude os fatos sociais reais. A análise da letra “Talkin’ all that jazz” do Stetsasonic encabeça toda a discussão que sustenta o argumento do autor, mas creio que tentar a todo custo provar essa “apreciação” teórica-estética do rap está na contramão do discurso e do posicionamento social que o eu-lírico desse gênero enuncia.
O quarto capítulo é o que de fato eu recomendo a leitura para quem curte rap, o autor faz uma breve reconstituição histórica das raízes culturais do mesmo para explicar o fundamento das deslegitimações que o gênero recebeu desde seu nascimento: “As raízes culturais do rap e seus primeiros adeptos pertencem à classe baixa da sociedade negra norte-americana; seu orgulho negro militante e sua temática da experiência do gueto representam uma ameaça para o status quo complacente da sociedade” (1998: 143). O autor discute acerca da originalidade existente na técnica do sampling denominando-a de “apropriação reciclada”, a seleção e combinação de partes de faixas já gravadas foi e é uma prática condenada por quem a considera mera cópia, sem autenticidade, e não percebe o trabalho criativo e de pesquisa feito pelo DJ, a discussão que Shusterman faz dessa técnica do rap é bastante interessante, ainda mais pra minha pessoa aqui que de técnicas musicais não entende nada. O autor também fala de como as colagens de sons do cotidiano, as referências a programas de rádio, de TV, outros artistas, enfim, como todo o universo ao redor do rap naquele dado momento é constituidor fundamental de seus conteúdos. O cotidiano adentra ao rap de maneira certeira, esse é um dos pontos que a tradição estética crê torná-lo datado e, por isso, sem valor artístico, no entanto, esse dia-a-dia, que transpõe os problemas locais das periferias que são o palco do rap, permite um diálogo universal entre os guetos do mundo e isso é demais! O diálogo de temas universais como a opressão e a injustiça permitido pelo rap entre as periferias é uma verdadeira afronta à universalidade referendada pela estética tradicional. O rap destitui da arte o caráter místico do “inalcançável”, nele os problemas são da ordem do dia e a criação que os levará para as rádios e cd’s tem que comunicar com o presente, aqui e já, sem mais delongas, sem blá blá blá's.
O capítulo sobre o rap abriu meu horizonte de baby diante da fundação desse gênero, as notas de rodapé são uma verdadeira enciclopédia do hip hop, o cara traz referências de músicas, discos e vídeos de artistas como Ice T, BDP, Kool Moe Dee, Grandmaster Flash, Afrika Bambaataa, Stetsasonic, NWA, Public Enemy e muitos outros. O autor fala sobre como esses artistas lidam com o conflito anunciado várias vezes em suas músicas: exaltação do luxo ao mesmo tempo em que condenam a idealização da busca do consumo desenfreado que não condiz com as origens do emissor primeiro de sua arte, o gueto. Bom, o livro é do começo da década de 90 época em que isso ainda era uma discussão em ascensão no rap, atualmente ostentar a riqueza surreal virou um clichê para vários artistas do rap estadunidense e isso é o que sempre me enojou um tanto no rap gringo. Quem vê de longe as cenas dos vídeos que a MTV divulga, fica meio desnorteado com tanta sexualização do corpo feminino, com as letras que abordam o sexo constantemente, sei lá, tudo de longe parece estar tão bem resolvido na periferia dos EUA. Lógico que essa é uma análise de quem tá vendo o macro vendido pela mídia, os discursos são múltiplos sim e conheço vários exemplos disso, mas o que o mercado se apropria e vende aos litros é o prazer fake e isso eu não curto. Nesse ponto eu acredito que o rap brasileiro ganha e está há anos luz dessa picuinha aí, somos periferia do mundo e isso não permite que nossos artistas percam de vista a tensão centro X periferia que é o mote insurgente do rap desde sua origem.
A letra analisada por Shusterman para referendar sua existência enquanto arte, "Talkin all that jazz", do Stetsasonic, traz no eu-lírico a auto-afirmação performática de sua arte como uma estratégia para alcançar status. A letra se inicia respondendo a acusação de que o sampling não é autêntico, o eu-lírico reivindica para o rap seu status artístico esclarecendo para o ouvinte como o mesmo é feito, além de acusar o crítico de ser um limitado ignorante do fazer do rap. A letra segue fazendo uma exaltação do caráter renovador da tradição musical afro-americana realizada pelo rap e finaliza mostrando o orgulho que essa ligação com a tradição fornece ao gênero. Durante toda a música um tom de ameaça é reiterado contra os críticos que desconhecem e tentam enquadrar o rap a partir de um entendimento inadequado para o mesmo, mas os compositores também tiveram o cuidado de selar a paz entre os ouvintes em geral, que não são esse corpo crítico poderoso do rap, dizendo aos mesmos que eles podem conviver pacificamente com o rap, pois a reivindicação de legitimidade artística que ele empreende não é para que o rap se torne patrão, mas para que ele possa se expressar publicamente em espaços midiáticos tão amplos quanto os destinados a outros gêneros.
         Fiquei um tempão pensando sobre uma letra de rap brasileira que empreendesse uma discussão sobre sua legimitidade artística perante a estética tradicional. Não consegui lembrar nenhuma, pode ser falta de conhecimento mesmo, mas acho que isso ocorre talvez por conta da resposta que o rap brasileiro dá ao que o rap gringo perdeu, a meu ver. A discussão centro-periferia daqui não prevê legitimação do centro, não é para ser rico sem ser mais nada para o espaço de onde se veio, não é para dizer que é arte frente a outros gêneros, creio que o rap brasileiro promove o diálogo local mais universal de todos, sem tomar para si a falha bandeira do universalismo. Ele olha pra dentro, mostra para os de fora o que suas violências causam naquele espaço da precariedade, mostra para os de dentro o que pode ser feito para dar conta dos problemas ali presentes, fala da injustiça, da opressão, da raiva, do amor, do futebol, da mãe e de todo o universo da periferia que, aqui, ainda está muito distante de possuir os bens que pertencentes ao centro. Não coloco na conta do rap a resolução de problemas estatais, sou idealista e romântica só nas paqueras (hehehehe), mas percebo seu movimento mediador entre os pares como uma estratégia de sobrevivência dentro e fora do universo que o gestou. O consumo da classe pobre mudou bastante no Brasil nos últimos dez anos, é um pulo anacrônico dizer que possamos estar vivendo o momento da música do Stetsasonic hoje, afinal estamos falando da maior potência econômica do mundo, mas esse poder aquisitivo vem surgindo no horizonte das periferias brasileiras aos poucos e pode chegar o momento em que essa legitimação perante “os outros” seja central para nosso rap. Por enquanto, acho que estamos no lucro, pedir legitimação pode ser visto como uma importante disputa de poder, isso é até parte do meu trabalho enquanto intelectual, mas colocar pra jogo partindo do fazer, da prática de uma arte que está ali por si só é mais condizente com o fazer que o rap propõe ao mundo: faça você mesmo.

Para ouvir "Talkin' all that jazz" -->  http://www.youtube.com/watch?v=9_NOcYismhU&feature=related







domingo, 13 de maio de 2012

Desacato é o 13 de maio: Emicida, o "Dedo na ferida" e os capitães do mato




A forjada abolição da escravatura no Brasil, ocorrida em 1888, já não é referendada por nós há muito tempo. Todxs sabemos dos problemas existentes em “comemorarmos” uma data que ainda está engasgada na garganta de quem foi escamoteadx para os lugares mais remotos, negligenciados e esquecidos por quem promovia o projeto de branqueamento e higienização da nação ambiciosa por esquecer que houve escravidão no Brasil, assim como esquecer que certa vez existiram pretxs nela. 

“Dedicado às vítimas do Moinho, Pinheirinho, Cracolândia, Rio dos Macacos, Alcântara e todas as quebradas devastadas pela ganância” assim se inicia a música “Dedo na ferida” que ocasionou a prisão o rapper Emicida, hoje, 13 de maio, após um show em Belo Horizonte-MG. A música é banhada por uma indigesta indignação diante do abuso que o aparelho coercitivo do Estado destina a uma dada população, de uma dada cor, que vive nos arredores de um dado poder e que, aos olhos desse, deveria ter desaparecido em um dado 1888. 

O rapper segue em sua canção cheia de scratchs, com a voz icônica de Mano Brown, nos lembrando que a fúria negra ressucitará sempre e indaga: “Auschwitz ou gueto? índio ou preto?”. O tratamento da polícia diante da população negra, que segue arquitetando o precário mais de um século depois do pseudo “presente da princesinha”, é envolto por uma violência que nos faz questionar se tudo ficou como memória amarga dos tempos da colônia. O genocídio da população negra brasileira é latente, as instruções de perseguição ao “elemento cor padrão” já figuraram (ainda figuram?) em cartilhas da Polícia Militar, barracos de centenas de famílias são derrubados e sangue é derramado visando o bem estar de um único empresário, e o desacato é do artista que cometeu o "crime" de não ter a cor certa para portar a legítima defesa que é a liberdade poética?

“Contra porcos em castelo / O povo tem que cobrar com os parabelo /Porque a justiça deles, só vai em cima de quem usa chinelo /E é vítima, agressão de farda é legítima” eis aí a pedrada de Emicida, eis aí a voz dxs silenciadxs encontrando seus algozes tête-à-tête. Esse é produto que o discurso do rap carrega consigo, a liberdade RAPoética reverbera a fúria que jamais deixou de protagonizar nossas resistências cotidianas que vão desde pegar o ônibus lotado para o trabalho, até a organização de uma manifestação para a defesa das comunidades que os senhores da casa grande insistem em usurpar. 

Não gosto nem um pouco de vislumbrar na minha frente um cenário com tantos resquícios de um passado espúrio, mas o fato é que as analogias são inevitáveis ao passo que o anacronismo fica sem justificativa de existir. Não é a-histórico dizer que o racismo perdura no Brasil se o que vemos é uma sociedade em que alguns figurões, donos de terras, mandam derrubar casas de gente negra e pobre. Não é a-histórico dizer que o racismo perdura no Brasil se o que vemos é um país que endereça “balas não perdidas” à população negra, que mata nossos jovens e se esconde atrás dos “autos de defesa” cheios de sangue. Não é a-histórico dizer que o racismo perdura no Brasil se o que vemos é uma polícia ignorante e despreparada que apenas atualiza o papel dos capitães do mato de outrora. Não é a-histórico dizer que o racismo perdura no Brasil se o que vemos é um artista tendo sua liberdade poética, expressiva e criativa sendo cerceada por um aparelho que deveria estar atento a questões urgentes, embora muito bem legitimadas e escamoteadas por brancos colarinhos. 

13 de maio de 2012, nada mais do que 124 anos após a abolição, nos vemos perante um extremado abuso autoritário que costuma encontrar a arte apenas nos períodos de governos golpistas com sabor de chumbo. Como felizmente esse não é nosso atual caso, é fácil perceber que se o agente enunciador do discurso for da cor receptora das brutalidades do mundo e que se houver o “agravante” dessa mensagem ser veiculada por um gênero altamente estigmatizado como o rap, a cadeia surge como “saída” e simulacro de todo um passado escravagista pautado na exploração racial. Hoje foi um daqueles dias em que nós, descendentes de ex-escravizadxs, mais uma vez amargamos na boca a raiva de uma data pesada, revivemos o ódio forjado pelos poderosos e alastrado pelos capitães do mato (pardos irmãos de cor) nas trilhas desse país purulento de feridas, estávamos ali na figura de Emicida, uma voz dissonante questionadora do vil poder, desacatadxs pelo 13 de maio, sendo todxs dedos na ferida.

* Escurecimentos sobre o ocorrido no site do Emicida: http://www.emicida.com/
**Para ouvir “Dedo na ferida”: http://www.youtube.com/watch?v=QdvYAjQYdIs&feature=youtu.be

domingo, 22 de abril de 2012

E para cantar a Literatura Marginal...


Na primeira vez em que eu ouvi a música #Poucas Palavras, do Grupo Inquérito, faixa do álbum "Mudança", fiquei agoniada pra escrever algo sobre sua construção de um fundo musical muito contundente, belo e fidedigno para a Literatura Marginal. Trata-se de uma música que me impulsiona consideravelmente, me arrepiou com sua ode a essa faceta da expressão artística que me faz acreditar em melhores faces para o mundo e isso me estimula a seguir. Tenho muito orgulho de estudar a literatura que estudo, de admirar xs escritorxs que admiro e de saber que essa produção periférica fissura muitos dogmas intocáveis. Isso é possível sim, acreditem, xs pessimistas que me desculpem, mas botar fé na MUDANÇA é fundamental. 
                Aqui no tardia eu já falei um pouco da obra #PoucasPalavras, do Renan Inquérito, um livro que bombardeia as certezas do cânone literário de uma forma desafiadora! “Se a história é nossa deixa que #nóisescreve” (frase enunciada na música também intitulada #PoucasPalavras) essa é a marcação de uma autonomia que nos foi surrupiada sistematicamente ao longo da nossa história, a narrativa de quem sempre esteve à margem. Já disse Foucault que o discurso é uma luta pelo poder, nessa perspectiva a instrumentalização para que pudéssemos alcançá-lo seria a nós impedida a todo custo. O que arranca minha admiração e me motiva é o discurso fronteiriço forjado nos arredores desse mundo de impedimentos, a Literatura Marginal é um exemplo cativo desse empreendimento.
                O livro organizado pelo escritor Ferréz, Literatura Marginal: talentos da escrita periférica, tem como texto de abertura “Terrorismo literário” que explicita o intuito dessa arte que ecoa discursos periféricos no reservado espaço literário: “Quem inventou o barato não separou entre literatura boa/feita com caneta de ouro e literatura ruim/escrita com carvão, a regra é só uma, mostrar as caras. Não somos o retrato, pelo contrário, mudamos o foco e tiramos nós mesmos a nossa foto” (2005:9). Estaríamos diante de uma procura incessante pela legitimação de sua escrita? Não mesmo, esse não é o objetivo de quem escreve o que quer e por sua própria conta, como disse o líder sul africano Steve Biko. Protagonizar, falar de si para seus comuns, falar de si para xs outrxs, produzir os moldes e não apenas usar aquele pensado para corpos alheios, não ser mediadx, cerceadx ou estigmatizadx, ser arte preocupada com conteúdo SIM e criando a cada dia uma FORMA que precisa de uma nova forma para ser compreendida são algumas das muitas  características da produção literária marginal.
                O grupo Inquérito está em consonância com a responsabilidade que Biko nos deixou como herança de luta e vida na obra “Escrevo o que quero”. A música #PoucasPalavras se inicia com a provocação: “Por várias vezes já tentei falar / Têm poucos para ouvir / Muitos pra escutar / Os desanimados / O rap tá embaçado / Nóis ‘somo’ movimento / Mas estamos parado / Fazer o que né? / Os dois lados da moeda / Uns tão envolvidos, outros tão de para-quedas / É favelado querendo ser boy / boy querendo ser favela / Mas no final, quem corre mesmo por ela?!” A problemática das motivações, anseios e construções que o eu-lírico almeja para o rap é a apresentação dessa canção, a polêmica estabelecida logo no início é uma manifestação de descontentamento com alguns descasos e apropriações feitas dentro de um movimento fundado na contestação dos problemas de quem pouco tem. O grupo Inquérito provoca e frisa a importância de se re(fazer) e se re(criar) através de expressões singulares dentro de uma linguagem que carrega em si identidade e endereço. Ferréz também marca essa ideia no “Terrorismo literário” na continuidade da frase acima citada: “A própria linguagem margeando e não os da margem, marginalizando e não os marginalizados, rocha na areia do capitalismo” (2205: 9). 
                Após dar lançar a discussão que promovem em sua música, a letra segue e enuncia: "Vou dar um salve / pra quem não sabe / O rap tem base / Bagulho não é fase / Hoje a favela é moda nas tela / Cidade de Deus, Tropa de Elite,Novela / Nois grava disco,lança livro,faiz até sarau / Nois lava alma e depois põe pra secar no varal / Toca nos carros, toca nas rádios / Enche a auto-estima / Tipo torcida no estádio”. Há um movimento em franca expansão que protagoniza e reivindica a fala de si, promove seus próprios eventos e não pede “permissão” para construir sua expressão. Mais do que fazer uma ode vazia ao modismo intitulado “estética da violência” que invadiu o mercado editorial brasileiro no final dos anos 90, essa música marca temporalmente um crescimento gritante vivido pelas periferias atualmente que veio acompanhado da autonomia, do protagonismo e reivindicação | reinvenção de criação. Nesse mesmo sentido, escreveu Ferréz no texto aqui já citado: “Somos mais, somos aquele que faz a cultura, falem que não somos marginais, nos tirem o pouco que sobrou, até o nome, já não escolhemos o sobrenome, deixamos para os donos da casa-grande escolher por nós, deixamos eles marcarem nossas peles, por que teríamos espaço para um movimento literário? Sabe duma coisa, o mais louco é que não precisamos de sua legitimação, porque não batemos na porta para alguém abrir, nós arrombamos a porta e entramos” (2005: 10).
                O terreno da literatura contemporânea é muito escorregadio, a todo o momento nos deparamos com as armadilhas da valoração arquitetonicamente construídas pelos guardiões do portão que Ferréz anunciou arrombar. O sociólogo francês Pierre Bourdieu, em “As regras da arte”, aborda as relações e a composição do campo literário para perceber sua influência direta ao valor dado às obras. É inquestionável o fato de que o trabalho de editorxs, críticxs, professorxs, pesquisadorxs etc, atua na “eleição” das obras mais “relevantes”, “importantes” e “clássicos” entre outras alcunhas. Nem é preciso dizer que a produção periférica que hoje arromba portões e destrói muros, nem sempre é referenciada, aceita e estudada como literatura por grande parte dos agentes do campo literário.
                Mas para esse proposital esquecimento e silenciamento respondemos estratégica e frontalmente: “a arte que liberta não pode vir da mesma mão que escraviza” essa frase do poeta Sérgio Vaz, presente no texto “Manifesto da Antropofagia Periférica” está para além de um diálogo com a música do Inquérito, as duas selam o comprometimento com uma arte em que nós tenhamos nossas subjetividades levadas a sério, sem caricatos ou histórias únicas, hora de colocarmos tudo em nossos livros, fazendo eco atitude de uma das precursoras dessa expressividade, Carolina de Jesus. Fecho meu texto com a frase dos meninos do Inquérito: "vida longa à Literatura Marginal"!

Link para ouvir #PoucasPalavras, Grupo Inquérito: http://www.youtube.com/watch?v=m7jjltFXAaI


domingo, 15 de abril de 2012

Ferréz, Sérgio Vaz e Gog na I Bienal Brasil do Livro e da Leitura

Quem esteve hoje pela manhã na I Bienal Brasil do Livro e da Leitura, realizada em Brasília, teve a oportunidade de discutir os desdobramentos da Literatura Marginal com dois dos seus mais destacados representantes, os escritores Ferréz e Sérgio Vaz.  O cantor e poeta Gog mediou a mesa que tinha como tema a “Expressão literária e estética da periferia”, o debate se deu em uma quente tenda do caríssimo evento que traz para a cidade expoentes da literatura mundial como Alice Walker e Wole Soyinka. 
As interfaces entre o rap e a Literatura Marginal são simbióticas, como bem frisou Sérgio Vaz em dado momento de sua fala. Então, não é de causar estranhamento o fato de que parte do público fiel ali presente fosse composto por pessoas que viraram a madrugada no show do grupo de rap Racionais MC’s, inclusive os palestrantes e o mediador da mesa. Nada como um dia após o outro dia de agito para leitorxs e agentes da Literatura Marginal (hehehe).
Bocejos e cansaços à parte, Gog apresentou os participantes ao público e iniciou as discussões da manhã falando acerca do compromisso que o Hip Hop tem de promover mudanças na postura e na formação dxs jovens (seu maior público) oriundxs dos espaços da escassez.  O cantor considera que a literatura é uma das frentes do movimento que articula muito bem tal “função”.
Ferréz fez uma contundente fala no que diz respeito ao compromisso formativo que ele abraçou como sendo um dos objetivos de seu fazer artístico. O escritor disse que sua missão ali era “convencer leitorxs a serem viciadxs em literatura”. Alguns podem julgar antiquado o “tom messiânico” dado a tal arte, mas convenhamos que é muito fácil estabelecer entendimentos como esse quando se vem do espaço do conforto. Quem sempre esteve nas melhores escolas, com acesso aos mais diversos livros desde a mais remota infância e que precisa de mais de duas mãos para contar o número de viagens que fez ao exterior acha “chic” lidar com a literatura se preocupando apenas sua FORMA em detrimento de seu CONTEÚDO. Essa relação é a raiz de todo o preconceito destinado à Literatura Marginal que não teria sentido algum longe de sua motivação fundamentada na construção de conteúdos que desdobrem algumas transformações, nem que isso seja apenas um sonho para leitorxs e escritorxs.
Partindo da motivação de ser agente modificador de seu lugar, mesmo que em escalas homeopáticas, Ferréz falou da sua atuação como palestrante e oficineiro em escolas públicas e presídios de São Paulo. O mesmo disse entender a literatura como algo vivo, essa percepção leva o escritor a disseminá-la nos espaços onde a vida se forma e também se transforma. O autor leva de Dostoievski, a Plínio Marcos e Fernando Pessoa, dentre muitos outrxs, para reviverem sua arte a partir do momento em que são lidos dentro dos espaços que são esquecidos pelo Estado.  Ferréz é um escritor, roteirista, cantor e empresário exemplo do compromisso verbalizado por Mano Brown, na noite anterior, em ocasião do show dos Racionais MC’s na cidade: “Maloqueiro, cuide da sua esquina” #FicaAdica.
Sérgio Vaz, o escritor mais sagaz também nos domínios do “espaço das revoluções com jujubas”, o twitter, começou sua fala lendo o  texto “Literatura nas ruas”, presente em seu livro “Literatura, pão e poesia” (2011), que aborda a experiência do mesmo com o sarau da Cooperifa, realizado há onze anos, em São Paulo. O poeta, em sua fala, contemplou os problemas e as vitórias enfrentados por quem encara a missão de propagar a Literatura Marginal. Para ele, a Literatura Marginal não salva vidas como fazem as ONG’s, mas forma cidadãos e cidadãs agentes de transformações cotidianas no mundo. Não poderia ter sido mais pertinente a intervenção do aluno da rede pública e poeta Fernando, que recitou seu poema para a plateia e nos atentou sobre a sistemática vitimização que o olhar outro emprega à periferia.  O eu-lírico do poema de Fernando nega todas as interpretações derrotistas dadas à favela e anuncia seu fortalecimento identitário no último verso: “apenas um guerreiro seguindo na missão”. Alguém ainda duvida da agência da arte marginal nas vidas marginalizadas?
A arte precisa se fazer compreensível e a Literatura Marginal (re)inventa a linguagem para dar conta desse objetivo. Sérgio Vaz frisou esse aspecto singular da expressão marginal explicando sua dinâmica de tomada do conhecimento e transformação do mesmo no já citado “Literatura, pão e poesia”, a “antropofagia periférica” assim se faz.
A plateia foi bastante ativa no debate, muitas perguntas foram feitas e houve uma rodada de autógrafos e sessão de fotos com Ferréz, Gog e Sérgio Vaz ao final da mesa. Impossível conseguir transpôr aqui no tardia tudo o que pude absorver desta manhã tão significativa. Vida longa à Literatura Marginal que promoveu um debate dinâmico, enriquecedor e ainda nos agraciou com declamações memoráveis dos, além de tudo, divertidíssimos Sérgio Vaz e Ferréz. Finalizo retomando a frase de Renan Inquérito citada por Vaz em sua contribuição: “Se a história é nossa, deixa que nóis escreve”.

*Fica minha crítica à disfuncional, quente e abafada estrutura montada com recursos que chegam a 9 milhões de reais do dinheiro público para essa bienal. Tanta grana no meio e em um dia de evento já me deparei com um  mal planejamento estrutural combinados com uma equipe de recursos humanos um tanto falha e uma insuportável  montagem de arena política de deputados e secretários de governo nos atos solenes, aff!
**Troféu joinha para duas pessoas sem noção da produção que chamaram o Sérgio Vaz de Sérgio Sá duas vezes!! =S
***Chamar o twitter carinhosamente de “espaço das revoluções com jujubas” é coisa da querida Ludimila Moreira Menezes! ;P
****Todas as fotos são da Laetícia Jensen Eble querida. ;)

segunda-feira, 19 de março de 2012

Dois anos sem Dina Di

      Há exatos dois anos, no dia 20 de março de 2010, o cenário musical brasileiro sofreu uma grande perda, Dina Di, cantora e líder do grupo de rap Visão de Rua, faleceu em decorrência de complicações surgidas após uma infecção hospitalar contraída no parto de sua segunda filha. A ainda muito jovem Dina Di, com 34 anos, abandonou o barco desse mundo falido e deixou o rap destronado: se foi sua Rainha. Inquietante uma frase dita por ela na abertura do álbum "O poder nas mãos", de 2008, (  ♥♥♥♥♥ ) antecipando e sintetizando o que hoje sentimos frente a sua precoce e evitável morte: "a negligência pode resultar em tragédia".
       Nos últimos tempos eu andei muito imersa na história de vida dessa grande mulher. Lembro de ter ouvido o mega sucesso dela "A noiva de Chuck" nos tempos do colégio e tudo, mas eu não estava, na época, atenta ao significado daquela voz e presença num meio em que se contava nos dedos o número de mulheres. Dina Di desbravou não só o espaço feminino nesse gênero, mas o próprio espaço do rap em nosso país. Se hoje vemos uma cena em franca expansão, cada vez mais profissionalizada e capaz de auto-gerir seus shows e vendas de CD's, é porque algumas figuras construíram a ferro e fogo o lastro da mesma, sem dúvidas Dina Di foi uma delas.
       O primeiro álbum do Visão de Rua, "Herança do vício", de 1998,  trouxe à tona a voz forte da paulista Viviane Lopes Matias, ali já chamada pelo nome que impõe respeito e admiração para quem foi, é ou será amante do rap brasileiro. Trabalhada nas calças largas, tênis, camisetas e se refugiando no vestuário masculino para "infiltrar-se" entre aqueles que detinham o cenário do rap, Dina Di arquitetou sua arte e presença. A inteligência e a estratégia dela me impressionam, foi uma mulher muito refinada que se fez respeitar combinando letras fortes, ousadia e fortaleza como elementos que fundamentaram sua trajetória artística.
Tem uma entrevista muito fera que ela deu para o site Mundo Black ( link: http://www.youtube.com/watch?v=c_MwTgDUzHI) na qual a cantora diz que o rap era um espaço sem preconceitos, que ela como mulher não se sentia desmerecida e que a ausência feminina no gênero era apenas uma questão de falta de mulheres que quisessem  encarar algo que ainda estava sendo construído. Por mais que eu faça outra leitura dos problemas enfrentados pelas mulheres em muitos espaços, não só no rap, acho que ela conseguiu desbravar o insólito e fez de sua trajetória, vida e arte um marco para esse movimento musical tão comprometido com as mudanças urgentes do mundo desigual.
      Saúdo e agradeço à Rainha do Rap que ressignificou uma vida cheia de feridas, sem deixar que as suas cicatrizes desfigurassem sua poesia, mas sim a fizesse única. A vida dessa artista foi mesmo uma daquelas que nos faz perguntar: como ela conseguiu superar? Ainda na adolescência teve diversas passagens pela FEBEM, o pai dela, um mestre de obras, morreu engasgado com um pedaço de carne em um buteco, sua mãe, uma camelô, foi assassinada violentamente em sua própria casa com requintes de crueldade inacreditáveis e como ela conseguiu seguir, gente? Esse é o questionamento que me faço constantemente ao lembrar de Dina Di. A resposta ela mesma tratou de nos fornecer na já citada abertura do álbum do Visão de Rua: "Quando a gente sofre uma grande perda é como se ficasse um buraco na nossa existência  /  Por outro lado se eu não tivesse passado o que eu passei, perdido o que eu perdi, eu não teria profundidade como mulher, valeu a experiência". Sinceramente, eu acho pouco chamá-la de guerreira, Dina Di foi mais que isso. Imagina estar imersa na tristeza e conseguir transfigurar isso e ser madura o bastante para perceber as modificações internas que a tormenta fornece?!
Uma de suas últimas fotos com  Aline, sua filha.
 A Rainha do Rap cantou a esperança em muitas músicas como em "O poder nas mãos", cantou o amor na linda "É nóis", gritou para quem pudesse ouvir o problema da violência doméstica em "Dormindo com o agressor", cantou toda sua fortaleza em "Guerreira de fé", cantou sua fé em muitos trechos de suas canções como a "O filho pródigo", falou para a juventude acerca da violência urbana em "As coisas mudam", alertou  às jovens acerca das dificuldades enfrentadas por quem encara uma gravidez muito nova em "Marcas da adolescência", também falou dos entraves do mundo para a criação dos filhos na música "Meu filho, minhas regras",  relatou o cotidiano do sistema carcerário feminino em "Confidências de uma presidiária", enfim, Dina Di esteve na linha de frente do rap e da vida.
       Eis uma personalidade que me instiga e inspira, admirar sua arte e a forma com que esteve neste mundo é resultado dos ecos que ela construiu em suas músicas e posicionamentos. Dina Di, Guerreira de Fé, Rainha do Rap, sua voz se foi, mas os ecos dela em sua poesia são eternos. Só podia terminar esse textinho com uma frase dita pelo Helião, também no álbum "O poder nas mãos": "Ela é o máximo, luta, se esforça, tenta melhorar, tem sonhos, fica alegre ou triste por causa do amor, se não estivesse aqui, algo estaria faltando no rap, que o objetivo seja ação: Dina Di" ♥♥♥♥♥.

* Em muitos vídeos no Youtube, podemos revistar a voz e força das canções de Dina Di, há um em especial que nos apresenta outra faceta dessa artista, nele temos o registro da "face MPB" da cantora, vale conferir essa que foi uma de suas últimas gravações: http://www.youtube.com/watch?v=E7_BgvJHkjI&feature=youtu.be

quarta-feira, 7 de março de 2012

Por um 8 de março Rosa Parks ao som de Nega Gizza


Sou mulher, mas não sou tão frágil ou tão delicada
Meu microfone é minha arma
Minha palavra é como uma espada
Nega Gizza

Dessa vez eu não serei tardia (hehehe) e vim escrever algo sobre o 8 de março a tempo (milagre!).  O último post foi pesadão pra mim, trazendo várias reflexões sobre assuntos velados e que, por isso mesmo são muito caros a nós mulheres. Bom, pra minha lembrança do Dia Internacional da Mulher não ficar com o ranço da violência aqui no blogueiratardia, resolvi escrever um tanto sobre nossa força para encarar perrengues e as resistências cotidianas que forjamos para sermos possíveis nesse mundo falho.
O Dia Internacional da Mulher marca um episódio histórico de resistência na luta pela equidade de direitos entre os gêneros. No dia 8 de março de 1857, trabalhadoras de uma fábrica de tecidos em Nova York foram assassinadas quando se manifestavam a favor de melhores condições de trabalho, as trancaram e atearam fogo na fábrica em que se encontravam e isso resultou na morte de cerca de 130 tecelãs. Esse acontecimento é de extrema relevância para a luta de todas as mulheres, porém, aqui me reservo no direito de lançar meu olhar sobre uma batalha coletiva, mas muito íntima, travada pela mulherada preta que tece sutilmente suas ferramentas possíveis de guerra.
Esse texto é uma reverência à mulher negra que desencadeou um processo importantíssimo na luta pela igualdade dos Direitos Civis nos EUA: Rosa Parks ♥♥♥♥♥ #MáximoInfinitoRespeito! Não fiquei pensando nem cinco segundos quando me fiz a pergunta sobre que mulher preta cabulosa havia desencadeado desdobramentos tão ou mais reverberantes quanto os ocorridos após as mortes naquela fábrica. Constantemente, eu meio que separo as lutas nos meus textos néh??!!! Meu intuito com isso não é segregar cegamente, ser radical ou coisa do tipo, só considero importante pautar as diferenças que os  locais de fala guardam para si e o quanto colocarmos tudo dentro de uma única caixinha pode ser prejudicial. Exemplo mais repetido de todos, mas muito elucidativo: uma feminista branca que luta por igualdade de salários entre homens e mulheres pode, sem dor alguma, explorar uma trabalhadora doméstica negra dentro de sua casa e nem se coçar diante do ato abusivo. Feita minha breve defesa da especificidade da nossa saga feminina preta, parto logo pro anacrônico-encontro imaginado para o Dia Internacional da Mulher: “Larga o Bicho”,da Nega Gizza e da Yeda Hills e seu diálogo com Parks e seu feito. Diz aí se eu não ganho daquele personagem de desenho animado, o Bob Generic, nas minhas looongas viagens?! (hahahahahaha)
É lógico que eu resgataria um rap super querido pra falar do nosso dia, gente! A música “Larga o bicho”, da Nega Gizza e da Yeda Hills é um canto de luta e afirmação para todas nós, a mulherada preta. E para quem não conhece (acho difícil), a norte-americana Rosa Parks é um importantíssimo ícone de luta para os movimentos negros de todo o mundo. No dia 1 de dezembro de 1955, a costureira negra Rosa Parks voltava de um dia de trabalho e recusou-se a ceder seu lugar no ônibus em que se encontrava para que um branco se sentasse. Rosa Parks recebeu apoio do pastor (ainda desconhecido) Martin Luther King Jr. que em sua pregação pediu que a população negra apoiasse a costureira, a partir daí iniciou-se o “Boicote aos ônibus de Montgomery” que pautava o fim da segregação racial nos EUA e que teve duração de 381 dias. O eu-lírico da canção da Gizza diz: “Não sou do tipo que diz não, querendo dizer sim / Nem do tipo falem mal, mas falem de mim (...) Sou nega na pele e na mente / Isso me faz valente / Pois sei que sou descendente do guerreiro zumbi”. Parks não veio com meias palavras, meias atitudes e colocou pra jogo sua força contra a opressão com o pouco que tinha diante do poder do homem branco referendado por um Estado poderoso, estavam ali no ônibus: seu corpo, sua voz, sua escolha, seu cansaço, um tanto de medo, acredito, e os ecos de toda uma linhagem de #MulheresPretasGuerreiras.
Organizar-se diante das opressões é uma eficaz forma de diminuí-las, porém tais atos podem ocorrer de maneiras diferentes como, por exemplo, resguardando as sutilezas das armas que se têm, o cientista político James Scott chama esse movimento de resistência cotidiana. Tal conceito é um dos que eu mais gosto e que diz muito dos movimentos de resistências negras, tapão na cara de quem diz que historicamente aceitamos tudo de forma apática. Nossa Rosa Parks resistiu de forma tão “simples” naquele dia, mas de maneira tão contundente que até hoje a reverenciamos e levamos o ensinamento de sua coragem de geração em geração. Numa entrevista em 1992 a própria Parks explicou: "Meus pés estavam doendo, e eu não sei bem a causa pela qual me recusei a levantar. Mas creio que a verdadeira razão foi que eu senti que tinha o direito de ser tratada de forma igual a qualquer outro passageiro. Nós já havíamos suportado aquele tipo de tratamento durante muito tempo". Parks não era uma feminista acadêmica ou uma protegida que não podia sair de casa sem o pai ou o marido, era uma trabalhadora preta que queria voltar para sua casa depois de um dia de trabalho, pra mim esse é o limiar que diferencia as lutas de mulheres com origens e anseios tão diferentes.
Sua soberana força troca ideia com os versos de Gizza e Hills: “Mulher preta de espírito guerreiro / Quem é, é, sem caô, sem despero / Não sou mulata, não sou mula, sou canhão/ Sou granada que explode a solidão”. Rosa Parks estraçalhou a solidão de quem cedia seus lugares nos ônibus por medo ou por sobrevivência e convocou milhares de pessoas para mover a engrenagem do receio e tentar transformar a base: #IHaveADream!
            As guerreiras do cotidiano, herdeiras e irmãs de Rosa Parks, estão espalhadas por muitos espaços (AINDA BEM) e certamente levam consigo o entendimento explicitado nos versos de Nega Gizza: “Trago na pele a força e minha juventude/ Trago na massa encefálica a negritude/ Trago a virtude que confunde o imbecil /Piscou o olho fuuu fumaça subiu”. Nada da apatia de quem espera acontecer, nada de esconde-esconde, nada de temer o homem que se julga soberano: essa canção é injeção de força na veia!  Tenho total conhecimento de que extremar o subjetivo é dose, referendar o estereótipo de que mulher preta é forte e agüenta tudo já nos ferrou muitas vezes! Não quero fazer isso! Apenas quero registrar, no dia de hoje, que nossa coragem move boicotes, transformações e molda o barro-argila das vidas e isso é muito particular.
            “Larga o bicho” segue para seu fechamento com os versos: “A vida é uma escada /Um degrau após o outro / Rumo ao topo/ A linha ao topo/ A linha de chegada/ Sou mulher,mas não sou tão frágil ou tão delicada/ Meu microfone é a minha arma/ Minha palavra é como uma espada” #TeMETE!! Delicadeza e fragilidade são outros estereótipos construídos para que as mulheres permaneçam no crivo dos mandamentos machistas, fugir disso é estar armada, é ser Rosa Parks não ficando calada, é galgar degraus, ultrapassar linhas de chegada e construir topos só nossos.
            Numa data criada não apenas para darmos os “parabéns” para as mulheres, mas sim para refletirmos acerca dos fossos ainda grandes que diferenciam as mesmas dos homens em diversos aspectos, é importantíssimo pensarmos nas diferenças também alimentadas dentro da grande categoria mulher. Os privilégios raciais, muitas vezes “cordiais”, ainda reservam lugares de prestígio nos ônibus imaginários que podem ser as universidades, o mercado de trabalho, a política etc. Finalizo meu texto marcando a necessidade de refletirmos sobre essas fissuras internas da categoria mulher, fera demais comemorar as vitórias, mas ficar só no confete é ceder lugar pro opressor sentar no baú e ainda curtir a paisagem da janelinha. 

8 de março Rosa Parks ao som de Nega Gizza pra vocês!




segunda-feira, 5 de março de 2012

Rosas e Atitude para Ponciá


Acontecimentos violentos carnavalescos, uma música ouvida no celular a espera de um voo atrasado (Rosas, do Atitude Feminina ) e a lembrança de uma personagem querida (Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo ♥♥♥♥♥) foram a mistura que eu venho maturando desde o fim da festa da carne e que só desemboco aqui agora (tardia, oi?!), às vésperas do 8 de março, mas isso tem seu segredo de sentido, tenho certeza.

Há mais de uma semana que eu comecei a escrever esse textito, começava e parava, começava e parava, assim como o ciclo vivido por mulheres que tentam se desvencilhar da violência: começam e param diversas vezes, o medo fala alto e o recuo surge como a saída mais viável. Difícil lidar com a violência sempre e sempre, seja na #RealLife, seja nas representações artísticas e isso fez com que essa escrita não fluísse bem como as outras, enfim.
Muitas imagens e acontecimentos de agressões contra mulheres vieram me “visitar” nesse carnaval, "vi" de perto o que a gente não quer ver nem a quilômetros de distância. E aí, né?! O que fazer diante dessa merda toda é uma angústia que parece sem fim, uma estupidez que o discurso teórico-feminista ainda não me “ensinou” a enfrentar de forma eficaz. Vamos combinar também que eu nem tento mais esse tipo de resposta, pois para mulheres que não se encaixam no perfil padrão-clássico- feminista, os caminhos jamais seriam iguais: ok. Diante disso,  com o auxílio das mãos de verdadeiras sistas pretas, apostei minhas fichas na solidariedade e o refrão #SozinhaCêNumGuenta me salvou da doideira que é tentar montar o quebra cabeças do mundo opressor.
Isso rolou há uns quatro anos atrás, quando algumas “amigas pretas poder”  (Candaces ♥ ) resolveram montar um grupo para ler outras pretas poder elevadas a milésima potência (!!!) e as personagens dos livros que ali conheci se tornaram minhas terapeutas, gente! (hehehehehee). Na verdade, a maioria delas me deixava era loka dentro da roupa com as dores de suas vivências até eu entender que apagá-las de certas narrativas é esconder o indesejado em baixo do tapete.
Ainda bem que as mulheres pretas costumam pegar as dores, as pedras do caminho e acabam construindo castelos daqueles! Bota fé?! É isso que as meninas do grupo de rap aqui do DF “Atitude Feminina” ♥ realizam em sua trajetória de forma muito especial. E nessa de buscar nas trocas internas, na solidariedade e cumplicidade os motes-vida é que fiquei viajando (literalmente, voando de volta de um carnaval meio yin-yang) num encontro entre a música dessas garotas e a amada protagonista do romance Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo, escritora afrobrasileira contemporânea daquelas que encaram os problemas e tenta nos fazer potentes diante daquilo que nos emudece.


Ponciá ecoa a voz de tantas jovens negras que saíram do meio rural e foram para a cidade trabalhar como empregadas domésticas em busca de sonhos (alguém aí tem uma mãe, avó, tia, prima ou amiga com essa história?). O problema é que a cidade tem um sonho próprio no qual as Ponciás só cabem beirando as margens e lotando os puxadinhos. A trajetória de Ponciá Vicêncio não se difere das histórias não-ficcionais conhecidas por nós, as explorações dissecadoras da mão-de-obra, as péssimas condições de moradia, a educação e a saúde figurando como artigos de luxo e a necessidade de sustentar-se nessa corda bamba com as marcas deixadas por um marido violento são alguns dos fatores que levaram Ponciá a viver num mundo silencioso a parte. Tenho um palpite: se um encontro entre as sistas de Sobradinho não arrancasse nossa amiga Ponciá de vez da dor-apatia, ao menos a faria sentir-se acolhida: #SozinhaNinguémGuenta. 
A parte foda das escrivivências de Evaristo e do Atitude Feminina é a parte foda da vida: encarar as verdades de frente. Na maioria das vezes a gente quer ouvir o amor, a risada, dançar e esquecer a parte complicada de existir quando buscamos nos deleitar perante diversas manifestações artísticas, mas também podemos ir até as mesmas no intuito de diluir nela boa parte dessa parte foda. A música “Rosas”, das meninas do Atitude, traz para a cena do rap a escamoteada violência contra as mulheres e logo no começo denuncia: “A cada quinze segundos uma mulher é agredida no Brasil / E a realidade não é nem um pouco cor-de-rosa / A cada ano dois milhões de mulheres são espancadas por maridos ou namorados”. Essa estratégia de informar através da música tem retorno de compreensão muito rápido, considero incalculável o impacto dessa letra na vida de quem só vê amarras, é uma conversa com amigas verdadeiras e (conhecimento de causa) nada é mais revelador do que essa sincera troca.
Assim como a protagonista de “Rosas”, Ponciá Vicêncio ficou encantada por seu companheiro, a paixão veio de encontro a ela ali no meio da grande cidade: o pedreiro e a empregada doméstica resolveram construir uma vida juntxs. Conceição Evaristo foi delicada e muito responsável na construção das trajetórias de suas personagens, inclusive na representação do companheiro de Ponciá revelando ao(a) leitor(a) o fosso que escondia a violência que o mesmo destinava a ela. Bom, nesse texto eu não estou muito solidária (posso?!) com as pesadas cargas que arquitetam a subjetividade do homem negro de forma a fazê-lo reproduzir no espaço privado a violência que o assola no espaço público: um problema de cada vez. =O
O relato de atitude das meninas de São Sebastião prossegue com a narrativa para o momento em que as coisas mudam entre o casal: “Mas alegria de pobre dura pouco, diz o ditado/Ele ficou diferente agressivo, irritado/ Chegava tarde da rua aquele bafo de pinga/ Batom na camisa e cheiro de rapariga”. O mesmo ocorreu com o relacionamento de Ponciá e a protagonista passou a “conviver” com murros, olhos roxos, hematomas e o silêncio foi sendo firmado entre ela e seu agressor: não mais palavras onde antes cumplicidade. O senso comum, principalmente nas gerações passadas, imprimiu às mulheres que o comportamento adequado das mesmas diante do casamento é o da submissão e o lema “casamento é para toda a vida” forjou uma casa perfeita para o patriarcado promover seus mandos e desmandos.
O desfecho da situação protagonizada pela personagem do Atitude não poderia ser pior: “Começou a quebrar tudo loucamente lombrado / Eu falei que estava grávida ele não me escutou / Me bateu novamente mais dessa vez não parou / Vários socos na barriga, lá se vai a esperança / O sangue escorre no chão, perdi a minha criança/ Aquele monstro que um dia prometeu me amar / Parecia incontrolável eu não pude evitar / Talvez se eu tivesse o denunciado / Talvez se eu tivesse   o deixado de lado”. Alerta mais substancial que esse eu tenho pouca imaginação para formular. Tudo muito pesado, intenso, doloroso pra quem ouve, mas com incentivos de liberdade pra quem vive. Ponciá Vicêncio no meio de seu silêncio interrompido apenas pelas socadas do companheiro poderia viver a interrupção do mesmo através dessas Rosas a ela ofertada.
Esse texto é mais um devaneio de quem imagina como seria voltar ao barro origem (desejo reiterado por Ponciá durante toda a obra) fundador de nosotras sistas pretas, talvez isso modificasse tantas coisas! A mudança é motor das vidas neh?! Então que nossa força o gire muito e faça com que o nó na garganta que insiste em nos acompanhar se desfaça o quanto antes, todo dia e sempre. Um 8 de março de barro origem, rosas e atitude para vocês, companheiras! ;)




domingo, 12 de fevereiro de 2012

Por um mundo mais humano no quarto de despejo

           Essa semana o meu livro #PoucasPalavras, do Renan Inquérito, chegou aqui na minha caixinha de correio, ainda não tive tempo de ler tudo, mas grande parte do que li já me cativou.  Fiz igual criança que abre o livro e busca primeiro as gravuras (hehehe) e nisso dei de cara com uma ilustração do grafiteiro Mundano  ♥, artista com a incrível capacidade de falar muito através das imagens: #PoucasPalavras.

Grafittis do Mundano em diversas carroças de catadorxs. 
Mundano (nome surgido da combinação das palavras MUNDO + HUMANO) primorosamente ilustrou o livro de Renan Inquérito, o que resultou num trabalho de conversas líquidas entre forma e conteúdo. A página 119 chamou minha atenção logo de cara, nela há uma arte que faz eco ao projeto muito fera, encabeçado pelo grafiteiro, chamado Cidades Recicláveis. Essa ação consiste em lançar mão das carroças dxs trabalhadorxs catadorxs de materiais recicláveis como veículo de mensagens entre esses, o artista e a cidade.  Mundano, em muitas entrevistas, diz que a ideia da valorização de um trabalho tido como abjeto pela população figura como mote primeiro do projeto. Impossível seria esse trabalho não me remeter à Carolina de Jesus    , autora do muito estimado Quarto de Despejo: diário de uma favelada, lançado em 1960, obra em que a escritora retratou seu cotidiano como catadora de lixo e moradora da favela do Canindé e enunciou: “Quem trabalha como eu tem que feder!” também na página 119!
            Fato que a coincidência maior aqui não é o número igual das páginas, mas a crítica à sociedade que pretende esconder o indesejado em baixo do tapete do quarto de despejo. Na cena em questão, Carolina estava refletindo acerca dos comentários que uma mulher fez ao passar por ela dizendo que seu cheiro era horrível, semelhante ao do bacalhau. A escritora, que deu sentido à literatura pra mim, disse a tal senhora que havia trabalhado muito, carregado mais de 100 quilos de papel, que estava calor, que o corpo humano não prestava e finalizou: “quem trabalha como eu tem que feder!” repito no texto, uma vez que nada no mundo literário me arrepiou tanto nessa vida.  Em diversas passagens do seu livro, Carolina diz que a favela é o quarto de despejo da cidade, assim como seus moradores são o lixo da mesma. Carolina já denunciava a relação nada amistosa que a cidade alimenta com quem trabalha com o lixo e vive no espaço do despejo, arquitetado por seus poderosos nas primeiras décadas do século XIX, as favelas.   
          Mundano já pintou mais de 150 carroças nas cidades de São Paulo, Nova York (EUA), Buenos Aires (Argentina), Santiago e Valparaíso (Chile) e agora tem a empreita de levar o trabalho para outras cidades brasileiras. O grafiteiro atua em conjunto com xs catadorxs, inclusive as frases são idéias dos mesmos. O profeta Gentileza leva (pois ainda estão lá) palavras bonitas, para a vida de milhares de pessoas que circulam pelo caos citadino, através do muro estático, o alcance de várias carroças que se movem por todos os cantos da urbe é tamanho, ótima ideia, ótimos recados! 
        As pessoas não têm noção da dimensão do trabalho dxs catadorxs de material reciclado diante da cidade. Segundo o IBGE, na Pesquisa Nacional de Saneamento Básico de 2000 (imaginem isso hoje!), mais de 125 mil toneladas de resíduos domiciliares são coletadas todo dia no Brasil. Historicamente, os trabalhos de menor prestígio são ocupados por pessoas pobres, sem estudo formal e negras, ou seja, xs despejadxs. Esses que a cidade quer invisiveis, desde os tempos de Carolina, são agentes transformadores do excedente da mesma, Carolina refletiu sobre isso e disse: “Nós somos pobres, viemos para as margens do rio. As margens do rio são os lugares do lixo e dos marginais. Não mais se vê os corvos voando nas margens do rio, perto dos lixos. Os homens desempregados substituíram os corvos” (2005: 48). Combater o preconceito e a ignorância com arte é uma gentileza dxs artistas do reciclo, do grafite e da escrita com o mundo.

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Instalação audiovisual que reproduzia as paredes do barraco de Carolina
Uma das frases dxs catodores pintadas por Mundano nas carroças diz: “Meu trabalho é  honesto e o seu?”. Essa é uma das muitas alfinetadas que Carolina de Jesus destinou aos políticos em  uma obra, a autora tinha uma perspectiva muito aguçada das manobras políticas diante da favela: “Eles gastam nas eleições e depois aumentam qualquer coisa. O Auro (deputado federal na ocasião) perdeu (dinheiro no período eleitoral), aumentou a carne. O Adhemar (governador de São Paulo naquele ano) perdeu, aumentou as passagens. Um pouquinho de cada um, eles vão recuperando o que gastam. Quem paga as despesas das eleições é o povo” (2005: 114).  Com certeza Carolina de Jesus gostaria de pintar em seu carrinho (ela o chama assim) de catar papel: “Reciclem os políticos”. 
          O trabalho dxs catodorxs é alvo de milhões de violências, a discriminação experenciada por essas pessoas é algo de uma agressão tão profunda que rouba minhas palavras quando tento elucidá-la. Quando eu era criança, meu pai me explicou o motivo pelo qual ele sempre andava perfumado e bem arrumado. Senhor Huanderson era lanterneiro e pintor de automóveis, o que o obrigava a trabalhar sempre molhado, sujo de tinta, suado etc. Hoje, ele é tem sua própria loja, já caminhou muito na vida e alcançou um novo posto social (inshalá!rs), quando ele contou pra mim o porquê de andar arrumado quando estava fora do trabalho eu tenho certeza que não compreendi bem (era pequenina), mas ficou na memória o fato dele sempre ter me mostrado as muitas faces do racismo que, quando combinado às situações de trabalho subalterno e racializado, acaba forjando amarras ainda mais potentes de opressões que ele tentava minimizar a sua maneira. A relação do nosso corpo com o trabalho é cheia das escalas de diferenciações, gradações de cor, de ambiente, classe e muitas outras influências. Carolina de Jesus, alvo de constantes acusações sobre sua limpeza, desabafou em seu diário: “SE ESTOU SUJA É PORQUE NÃO TENHO SABÃO” (2005: 89). A autora, na citação que fiz bem no começo do post, fala da relação do seu corpo com seu fazer, aqui ela reflete sobre sua condição econômica de miséria e as implicações disso diante da sua apresentação pessoal. Por mais que pareça improvável (há quem possa achar que é só um desenho numa carroça), o trabalho do Mundano age diretamente sobre a autoestima de quem, por suas condições de trabalho, se vê sempre sujx, potencializando, então, os apontamentos de toda uma sociedade que hostiliza o que não se encaixa em seus padrões.
         O grafiteiro e xs catadorxs encontraram uma forma perspicaz de piscar prxs outrxs cidadãos e cidadãs em frases como: “Meu carro não polui e o seu?” ou “Agente ambiental trabalhando, não buzine”. Essas cutucadas são de uma sutil ironia, muito gentis e cheias de efeitos, o velho e eficaz tapa com luva de pelica: faço meu trabalho, garanto sobrevivência pra mim e melhorias pra você, cidade, me respeite. Carolina de Jesus, não apenas nessa obra, mas também em seu Diário de Bitita, nos leva a um mergulho sobre a vida infausta, como ela mesma se refere a sua. São muitas as agruras de quem está nas ruas, é viver, é morrer, tudo junto numa angustiante combinação. Longe de mim colocar flores onde muitos dissabores, mas longe de mim também podá-las. Tiro muito meu chapéu para quem tenta modificar nossos cenários sociais engessados e sufocantes, Mundano, em parceria com o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, faz isso a olhos vistos. Temos a arte atuando como agente contrária à invisibilidade que a cidade imprime, seja ela sendo expressa nos muros, nos livros, nas músicas, nos diários ou nas carroças.


* A montagem das quatro carroças com a arte do Mundano, assim como a fotografia final, foram retiradas do endereço: http://tedxveropeso.blogspot.com/2011/08/mundano-arte-como-instrumento-de.html
** A segunda imagem é uma instalação audiovisual montada na ocasião do “Seminário 50 anos do quarto de despejo” que reproduzia as paredes do barraco de Carolina na favela do Canindé, disponível em: http://comunidadequilombaque.blogspot.com/2010/11/quarto-de-despejo.html

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Ninguém é inocente na cidade cinza

A arrumação dominical da minha casa teve como fundo musical o álbum do Rodrigo Ogi, As crônicas da cidade cinza, lançado ano passado e que foi das melhores criações que chegou até mim em 2011. Entre colocar a roupa no varal e limpar os móveis, minha cabeça deu um giro por Sampa, suas ruas e as dificuldades impostas pela mesma e que vi sendo impressas por outrxs artistas em suas obras. Imediatamente, meus pensamentos caíram no livro que mais bem quisto por mim nos últimos tempos, Ninguém é inocente em São Paulo, de Ferréz, lançado em 2006.
Ferréz escreve na “Bula” de seu livro Ninguém é inocente em São Paulo: “eternos amigos que continuam a me contar suas histórias, que sempre estão ao meu lado”. No mesmo tom, Rodrigo Ogi, citando Plínio Marcos, finaliza suas Crônicas da Cidade Cinza: “Eu conto histórias. Histórias que eu vi com esses olhos que a terra há de comer um dia, ou histórias que eu ouvi, no buxixo das curriolas”. Narrativas que têm como pano de fundo a SP sem amor para uns e que imprime dilemas cotidianos em seus habitantes. São muitas as personagens criadas pelos dois artistas: o motoboy que precisa ser safo para dar conta de seu trabalho tão arriscado, o tiozinho dono do bar que não agüenta mais os boyzinhos da faculdade falando em revolução, o PM que pode não voltar para sua casa depois de um dia de trabalho, o cachorrinho pensante que muda de um prédio luxuoso para morar na favela junto com seu novo dono escritor, o safo malandro que encara toda a gangue do Zé Medalha sem fugir da briga, o cara que paga um lanche no Habibs para dois meninos moradores de rua que não podiam nem comer e nem brincar no barco viking do estabelecimento, o cidadão que se vê como concorrente de si dentro em uma corrida de ratos cheio de carnês pra pagar e uma família pra sustentar, o grupo de rap que é entrevistado por um jornalista que tem pânico da periferia, o bandido que tem a premonição que naquela noite a missão seria fracassada e desiste da investida, o repositor de estoque do Pão de Açúcar humilhado por seu chefe (UFA!!! hehe) e muitas, muitas, muitas outras vozes que contemplam o universo paulista periférico e que agora adentram ao mundo literário como protagonistas. 
          Quando ouvi o disco do Ogi, as imagens velozes por ele ali reunidas me transpuseram prontamente para um cenário cinematográfico. As crônicas rap do Ogi e os contos de Ferréz dialogam visceralmente, cada uma em seu veículo, mas ambas com a tarefa de representar a multiplicidade de vidas engolidas pela imensidão cinzenta, mas que articulam suas possibilidades em meio ao caótico. Alessandro Buzo, em Hip Hop: dentro do movimento (2010), diz que sua produção integra o quinto elemento do hip hop, o conhecimento, este que reúne a produção de livros e filmes. As diversas manifestações desse movimento são cada vez mais simbióticas (por exemplo, a capa da mixtape de Ogi trás uma arte dos irmãos grafiteiros Os Gêmeos ) e são essas aproximações que vejo fortemente na literatura escrita e a cantada de Ferréz e Ogi.
        O primeiro conto de Ferréz “Fábrica de fazer vilão” nos arranca do comodismo logo de cara, trata-se de um episódio em que a violência policial é levada ao extremo e toda uma família negra é humilhada. O conto narrado em primeira pessoa tem como sujeito de enunciação um rapper acusado de ser vagabundo por parte dos policiais que invadem sua casa, ao que ele que responde: “sou trabalhador”.  Essa frase guarda consigo a dignidade de toda uma classe economicamente desfavorecida e atua como mote e ordem do dia das várias personagens das duas obras.  Nesse conto de Ferréz, os policiais ameaçam atirar em alguém daquela família, mas não efetivam o assassinato, a diversão deles ali era instaurar o medo. Já a faixa 10 do álbum de Ogi, Noite fria, narra uma cena na qual a personagem, não por acaso, é ouvinte do Sabotage e  sai com parceiros na madrugada em busca do “corre” da noite e acaba se deparando com  a polícia que o espanca e depois o mata. As repetidas histórias do cotidiano não só de São Paulo, mas de todo um país marcado pelo racismo da polícia que se esconde atrás dos “autos de resistência” são denunciados e problematizados pelos dois artistas.
O meio do caminho do rapaz que é trabalhador, mas se vê engessado pelo desemprego é tema da faixa “A vaga” (a melhor, na minha opinião). A narrativa conta o dia de um jovem que se vê diante de portas constantemente fechadas e que  enfrenta a vontade de fazer o jogo virar repentinamente, do jeito que der pra fazer isso ocorrer.  A personagem pensa em roubar o iphone da minazinha que moscou, mas sua consciência, com voz de Mano Brown, grita: “a vaga tá lá esperando você”.  O alerta, acerca da vaga indesejada, dado no diário do ex-detento Jocenir se contrapõe a tão almejada vaga de emprego que é o anseio presente no conto “No vaga”, de Ferréz.  As histórias de dois amigos desempregados e suas esperanças compõem o enredo desse conto.  Ambos reclamam da dificuldade de serem fichados em algum emprego, e diante do entrave, aceitar cair conscientemente na lorota das empreitas duvidosas é a saída vislumbrada pelos mesmos. Antes ser contratado investindo seu próprio e pouco dinheiro no negócio, do que não ser contrato de forma alguma. O narrador da música do Ogi encontra sua vaga de limpador de candelabro, os jovens de Ferréz topam vender três planos dentários para, então, serem contratados e assim, forjando resistências, esses jovens arquitetam vagas paras suas corajosas vidas encaradoras do armado concreto.
 A faixa que inicialmente mais me empolgou nas crônicas foi “Os tempos mudam”, parceria do Ogi com a Lurdez da Luz e que enuncia mudanças significativas no cenário social. Os dois cantam no refrão que os tempos já não são mais os mesmos e avisam: “se prepare, pois seu mundo também vai mudar”. Insistir em machismos, preconceitos, misoginias e afins é tolice, os tempos mudarão para todxs e essa já é a realidade de muitas mulheres (esperança e luta diária). No conto “O plano”, Ferréz faz uma breve descrição de uma mulher da periferia dizendo que a mesma está em pé no ônibus lotado, mais de meia noite, com cadernos no braço e conclui que achar como aquela em outro lugar é quase impossível. Somos múltiplas (nozes ♥ ) em muitos espaços e encontrar representações que fogem do lugar comum para a mulher periférica é só o ouro, não preciso nem dizer isso para não ser repetitiva. Ogi e Ferréz contemplam (ainda que isso precise aumentar quantitativamente) as vozes dissonantes femininas em suas narrativas, seja na representação de uma que atua como chefe de família e tem seu marido em casa cuidando dos afazeres domésticos (o que traz para a pauta do rap a troca dos papéis socialmente construídos para os gêneros), seja na guerreira solitária que enfrenta jornada tripla de trabalho fora, estudo e afazeres domésticos para dar conta de sua sobrevivência nas cidades cinzas.
            A narrativa que conta a trajetória de um retirante nordestino comunica diretamente com a vida de tantas famílias, vejo a minha ali também, trata-se da faixa “Eu tive um sonho” na qual Ogi canta ,com sotaque, a saga de um senhor que concretizou sonhos  em meio ao cinza. Essa narrativa se entrecruza com a do pai do próprio Ferréz que recebe sua carta no conto “Assunto de Família”: “Sabe, Pai, o senhor deve estar jogando dominó ou baralho em algum barzinho, num canto de algum gueto, é o seu jeito, né não?” (2006: 79). Repentes de vencedores.
            São muitas as conversas entre essas obras, aproximações, dialogismos , construções de novos cenários, vozes dissonantes, representações múltiplas de vidas são matérias desses artistas que imprimem em suas criações as angústias e também levezas de uma cidade intrigante. Tudo isso sedimentando, cada um em sua especialidade, uma forma de contar menos excludente e mais rica diante das diversas facetas das muitas verdades e mentiras também. Quem ainda não leu Ferréz ou ouviu Rodrigo Ogi que faça isso, deixo a dica, ninguém é inocente na cidade cinza.